Archive for Julho, 2008
Dreaming About Teeth 002
Por James B. W.
Os insetos ressoavam em seus zumbidos e piados típicos do horário. O céu estava mais escuro do que seria capaz na cidade, mas Sai estava satisfeita com o ar do campo que se espalhava pelo seu sítio. Julian, Edwin e John estavam certamente trabalhando na louça do jantar que as meninas haviam preparado, e mesmo que tenha passado pelas suas mentes reclamar, elas haviam cortado essa possibilidade com olhares fulminantes.
Sai aproveitara a atenção momentânea dedicada por suas amigas a algum objeto velho achado em sua própria casa para se esconder na varanda. Dessa forma, não teria de ouvir o som dos copos e pratos se estilhaçando, apesar de ter certeza plena que era exatamente o que estava acontecendo.
Talvez, ela pensou, estivesse mesmo se tornando uma romântica irrecuperável, tomando a bebida fermentada quando todos se enlouqueciam com algumas garrafas destiladas e esperando que ele irrompesse ali fora a qualquer momento. Com as mãos sujas de sabão e um sorriso estúpido, perguntando por que ela estava tão longe e tão sozinha. Seria um plano perfeito para não provocar nada além de uma sensação agradável, subindo pelo seu tórax até corar suas bochechas. Era engraçado como tudo parecia ter sido monumentalmente planejado visto que eram quase três casais. E o maldito quase pela falta de relação entre Sai e John. Ela chegou a pensar que sua mente estivera pregando peças nela, a confundindo antes mesmo que conseguisse se decidir sobre os seus sentimentos e a empurrando sem escapatória para o caminho do platonismo – como se ela mesma não estivesse entregue a ele. Mas Sai estava feliz quando John se aproximava e dizia coisas banais; Feliz o suficiente para não se incomodar com a espera.
“Ei..” E as duas letras flutuaram pelo ar puro, encostando-se no ouvido de Sai como uma melodia.
Ela sorriu e se virou, sustentando o sorriso como um cumprimento, mas sabendo que ele tinha outra razão.
John caminhou com as mãos pingando água e sabão pelo chão vermelho-tijolo que manchava os pés. Sentou-se na rede ao lado dela e com a mudança na estabilidade do pano, Sai pendeu para o seu lado, virando a taça alguns milímetros e derrubando um pouco do líquido em sua calça. Estava um pouco mais perfeito que o plano de sua mente.
“Merda, John!” praguejou.
Ele revirou os olhos e dirigiu as mãos ensaboadas para o joelho da menina, tentando inutilmente livrá-la daquela cor de sangue. Sai achou um tanto absurdo o modo como ele arruinara as coisas e estava arruinando sua calça, mas não haveria um mundo em que ela pudesse pedi-lo para se afastar ou parar de tocá-la. Na verdade, ela chegou a quase dizer isso, antes que ele se irritasse com a sua própria performance e começasse a ser mais vigoroso nos toques. Então, distância parecia tão dolorosa quanto na maior parte do tempo de novo.
“Desculpe.” Ele pediu, começando a rir em um quase silêncio. “Você está bem?”
“Você só molhou a minha calça. Foi estúpido, mas não é como se eu fosse começar a me sentir mal por isso.” Sai riu junto, encarando os olhos amendoados pelo segundo em que o rosto se virou para ela, e suspirando pelo próximo.
“É só que.. Você está quieta. E isso está uma desgraça.” Ele se afastou novamente, deixando a tarefa de lado ao perceber que Sai não ligava para o estado da calça, de qualquer forma.
“Eu estou bem. E a calça vai ficar.” Ela sorriu e bebeu mais um gole do vinho, antes de estalar os lábios e começar a falar olhando para o céu.
“Quando eu era menor, vir para o sítio significava estar sem horários. Para comer, dormir, ou todo o resto. E eu gostava disso, porque de fato quem controlava meus horários era a empregada, e soava muito como regras para mim. Desde já eu era acostumada aos padrões da minha mãe. Viver por aí, vivendo..” Sai olhou para John, para ver se ele se perdera nas palavras ou ainda estava a acompanhando e ele fez um sinal com a cabeça para que continuasse.
“Então, quando mamãe e papai dormiam ou ficavam conversando na sala, eu deixava a luz de dentro acesa e apagava a da varanda, como agora, porque eu tinha medo do escuro. Eu sentava aqui e ficava olhando para o céu, encolhendo a minha visão para que só pudesse enxergar a escuridão a minha frente e os pontinhos luminosos. E eu não sentia medo, porque a luz estava às minhas costas, e eu podia me aventurar em enxergar somente o céu. E era como se não só não houvesse horários para as minhas tarefas, mas como também não houvessem tarefas..“ Sai suspirou, perdida no céu por mais um instante. “Soa estúpido, porque o momento especial de todas as pessoas é quando não há mais nada além deles e o mundo. Mas eu acho que é aí que está o ponto.”
O silêncio contornou o lugar e Sai começou a se perguntar porque havia dito tudo aquilo. Parecia bem estúpido falar tanto de si sem nenhum motivo particular, e foi quando Sai começou a se sentir estúpida. Não que ela não se sentisse assim toda vez que John estivesse por perto, mas ela achava justo citar. E frisar.
“Você tem medo de escuro?” Ele perguntou, fazendo-a arquear a sobrancelha.
“Um pouco.” Confessou.
“Mas quando ficam sozinhas de verdade, as pessoas sofrem. É por isso que você tem medo, você não consegue enxergar ninguém se as luzes estão apagadas.” John suspirou. “E quando você sabe que tem alguém lá, então, você segue. Porque ser sozinho é o melhor sonho e o pior pesadelo.”
Sai sorriu enquanto John usava as pernas para balançar a rede. Ele não viu, porque também estava sonhando com a solidão, mas Sai estava exibindo o seu melhor sorriso para o céu. Ela pensou por um segundo, repetindo a voz na sua mente um milhão de vezes ou quantas forem necessárias.
“Na verdade, você quem é. O pior pesadelo favorito.” Ela pensou, mas aí estava outra coisa que ele não saberia.
To be continued..
1 comment Quinta-feira, Julho 24, 2008
Dreaming About Teeth 001
Por James B. W.
N/A: Narração feminina, por Sai.
O céu estava mergulhando em um cinza claro, mas sem cor de uma forma tão extrema que era quase tedioso. E mesmo que houvesse manchas se espalhando sobre as montanhas, nada disso era empolgante. Eu cheguei a ficar com raiva pelo fato do Sol não fazer o gramado reluzir, se escondendo atrás de grossas camadas de água. Pelo menos o chão não estava úmido, e eu pude me sentar na grama sem nenhum problema.
Provei do suco vermelho incerta. Que era doce foi a minha primeira conclusão, mas eu não pude identificar a fruta. Estava bom, de qualquer forma. Eu nunca fui boa com os sabores.
Reclinei-me, apoiando o peso em minhas mãos atrás de meu corpo. Seria maravilhoso se os raios de Sol pudessem beijar meu rosto e me fazer enrubescer, mas todos os simples desejos daquela manhã pareciam ser pedidos contrários. Na verdade, dos últimos meses. Eu estava começando a temer desejar estar viva, pois era mais possível que um aracnídeo gigante invadisse meu quarto do que um desejo meu ser atendido.
Eu não vi quando John caminhou até mim, mas pude sentir a mudança do ar quando ele se sentou ao meu lado. Era uma surpresa que ele houvesse decidido se juntar a mim naquela viagem, já que poucos de seus amigos haviam vindo conosco. Mas ele e Edwin estavam se saindo bem até agora. Carregaram as malas para dentro ontem de madrugada e acordaram cedo para nos ajudar a preparar o café. E mesmo que Julian houvesse ligado há alguns minutos declarando-se rendido pelo temporal que abatia a cidade há dias, e relatando que estava arrumando as malas, eu estava contente que a iniciativa de passar mais tempo comigo fosse baseada em coisas mais minhas do que deles.
Ele suspirou sonoramente, apoiando os braços no joelho e olhando para as colinas assim como eu. Eu cogitei a possibilidade dele estar pensando em algo para dizer, iniciar um assunto ou sabe-se Deus o que, mas nada foi dito. Ele permaneceu calado pelos incontáveis segundos em que eu deixei meu coração acelerar. Não chegou nem a pedir quando seus dedos brancos se apoderaram do meu copo, mas ergueu um canto da boca quando eu o interroguei com a minha sobrancelha.
“O que há? Meu suco.” Eu disse, num tom de brincadeira, mas ele não retribuiu com a voz.
Eu olhei para trás quando um grito ecoou pelo meu quintal e vi Nikki sendo jogada na piscina de maneira completamente covarde por Edwin. John gritou alguma coisa, mas meu cérebro não se deu ao trabalho de absorver. Eu estava olhando para a curva de seu pescoço, quase coberta pelos fios loiros, completamente alheia a cena que se seguia atrás de nós, e só reparei que estava perto demais quando o ar que saía pelo meu nariz fez com que os fios tremessem. Ele se virou para mim, me dando a deixa para me afastar, e eu alinhei meus cabelos enquanto ele abria a boca para falar.
“Obrigado por nos convidar, Sai.” Pronunciou.
“Eu nunca achei que você fosse do tipo que agradecia.” Eu sorri, deixando claro que era uma brincadeira boba e sem sentido. Em outras palavras, deixando claro que eu podia ter ficado calada.
“Nem eu.” Ele sorriu também.
Eu poderia dizer que ele estava deixando claro que não era uma brincadeira, mas seria uma dedução precipitada baseada em nada. Eu notei que ele ainda tinha o canudo pendendo de um canto da boca quando um barulho soou. Ele havia bebido todo o meu suco, e quando retirou o plástico da boca eu vi que estava com marcas de mordidas na ponta. Rolei meus olhos e larguei os ombros alguns milímetros, mas John se levantou.
“Eu pego mais para você.”
Eu desejei dizer que não era necessário, e pedir para que se sentasse ao meu lado novamente, mas só quando já havia confirmado com a cabeça e feito ele se afastar. Procurei pelos olhos Nikki, e encontrei-os sobre mim, vindo da piscina. Ela sorriu docemente me fazendo questionar se eu parecia tão triste e solitária quanto ela parecia sentir pena de mim. Mas no segundo seguinte ela havia afundado e recomeçado uma brincadeira sem sentido com Edwin.
Eu me encolhi dentro do meu pijama e desejei calor.
To be continued..
2 comments Quinta-feira, Julho 17, 2008
Secret (Everlasting Passion for Nicotine)
N/A: Narração masculina.
Ainda era cedo. Era uma tarde mal começada e o Sol estava a descer no céu há uma dupla de hora. Era cedo demais para estar na rua, para estar ali. Era cedo demais para o nível de álcool que passeava por minhas veias, e o nível de tontura que se espalhava pelo meu crânio. Meus olhos começavam a quedar-se para a sensação de leveza e sono, e quase fechavam-se dramaticamente enquanto eu concentrava todas as minhas forças para mantê-los com um foco. Eu não estava bêbado. Não havia ficado nem feliz. E, quanto mais eu mergulhava minha língua naquele líquido ardente, mais cansado de tudo eu ficava. Mais exausto.
Eu não havia dormido bem. Não era a primeira vez na minha vida, nem no mês e muito menos naquela fatídica semana. Nada estava errado claramente, mas havia aquela sensação crescendo dentro de mim, como se eu estivesse fazendo alguma coisa muito errada. E não era estranho a mim fazer coisas erradas, mas daquela vez eu estava fugindo dos padrões. Eu estava permitindo que uma garota se apaixonasse por mim e me apaixonando em retorno. Eu estava ficando bem assustado.
Em outros tempos eu não estaria assim, perturbado, receoso, certo de que alguma coisa não estava se passando bem dentro de minha mente. Mas é exatamente como eles dizem: mais você conhece da vida, mais você teme dela. E não há nada que nós, meros mortais diante da grandeza dos acontecimentos, possamos fazer contra isso. Então, eu já havia aprendido que quando um homem gosta de uma mulher e essa mulher gosta desse mesmo homem, eles estão destinados a sofrer para o resto da vida, ou até o momento em que eles passem a se conhecer e a beleza do amor, e o amor em si, acabem. E eu não havia escolhido se eu preferia sofrer por Julia eternamente ou assistir isso acabar.
Porque, a idéia de acabar com algo prazeroso me enlouquecia. Eu era o tipo que mantinha o fogo queimando apenas porque ele era quente. Que mantinha-me embaixo das cobertas porque era aconchegante. Que não atendia o celular porque o toque era divertido. Eu mantinha as coisas acontecendo porque eram agradáveis. Então, estava em uma encruzilhada. Eu não aceitava a idéia de sofrer por uma mulher e muito menos de acabar com um relacionamento confortável.
Eu não estava nem sequer triste. Eu estava incomodado e, quanto mais eu me sentia incomodado, mais eu perdia meu sono e o achava em horas inapropriadas – e isso me incomodava. E mesmo que o assunto fosse interessante, e Sai fosse simpática, e a música fosse animada, e o meu copo estivesse repleto de mais álcool. Mesmo que toda a situação se curvasse para algo agradável, confortável, meu pé continuava batendo no chão, e meu dedo no plástico do copo, e minha boca estalando e meus olhos cismando em fechar. E mesmo que eu não transparecesse tanto a minha agonia, ainda assim eu a sentia. E isso me irritava.
Sai acendeu um cigarro com certa dificuldade à minha frente. Mesmo que estivesse treinando frequentemente – havia enchido todos nós para acender os nossos – ainda era um desastre nisso e eu me segurei para não rir, estando ao mesmo tempo certo de que a sobrancelha erguida em seu rosto era para minha boca fechada com força. Tragou, e estendeu para mim.
Eu segurei entre meus dedos e dirigi à boca. Se Julia estava bem, e eu estava bem, então estávamos bem e não havia motivo para essa sensação estranha. Eu puxei a fumaça, sentindo-a preencher meu pulmão, mas sem sentir nenhum relaxamento automático. Talvez eu estivesse ficando dormente pela vodka, talvez eu estivesse com a mente em outro lugar, ou talvez eu estivesse intoxicado demais para me deixar levar por Nicotina. Mas eu amava Nicotina mais do que eu amava Marijuana ou qualquer outra espécie de fumo. Eu amava o meu relaxamento mais do que qualquer alucinógeno, e eu estava bem com ele, mesmo que ele estivesse distante.
Soltei a fumaça para o ar e devolvi o cigarro. Não cheguei a me prender na imagem de Sai tragando mais uma vez, distraidamente, porque também dirigi o meu olhar para onde o dela estava. Era óbvio, e eu não estava surpreso mais, que estivesse pousado sobre a face de John. Ele era tão comum, como um bastardo, e apesar de ter herdado a aparência de soberano, nunca herdaria também ela. E Sai estava completamente perdida, com sua mente completamente mergulhada ali, divagando sabe-se lá sobre o que, e deixando que seu desejo transparecesse ao menos para mim, que conhecia o seu segredo longe de ser secreto. Ele sentou-se ao meu lado, de frente para ela de pé que correu seus olhos para os meus, receosa de que ele soubesse que também dessa vez a presença dele a embriagara. John não iniciou um assunto, também pensativo, e quando eu fiz uma piada estúpida ambos riram desinteressados. Aceitei mais uma vez o cigarro e me entreguei aos pensamentos.
Porque eu e Julia, em algum momento de nossa história, ficaríamos também assim. Em silêncio, pensando em coisas distintas. E eu me peguei desejando que ambos fôssemos como Sai: sublimes com a presença do outro, sem sequer uma demonstração de reconhecimento dirigida a nós. De fato, eu seria muito mais feliz se o meu amor chegasse ao ponto que chegou o de Sai. A felicidade plena pela presença do amado. A excitação enlouquecedora por uma conversa.
Mas também ali havia o desejo de um pouco de coragem para uma intimidade mais ampla. Eu sabia o quanto ela estava se perguntando se poderia sentar-se ao lado de John e tocar em sua blusa. Ou seu rosto. Ou seu cabelo. Eu sabia o quanto ela queria inclinar-se um pouco e contar a ele um segredo qualquer, para sentir seu cheiro, ou a pele tocando em seus dedos curvados como uma concha. E eu não soube se poderia lidar com essa vontade tão simples e essa dúvida tão grotesca.
Eu puxei o ar pelo filtro do cigarro em minha boca, agora mais relaxado e sentindo o formigamento leve começar. Sai falou qualquer coisa sobre alguém caindo, bêbado demais para manter-se em pé, mas eu não cheguei a rir. Eu me inclinei sobre o corpo de John, sentindo o olhar dela sobre minha pele e seu peito explodindo em dúvida e euforia. Ela era uma slasher neurótica, como sempre deixava claro, procurando o tempo todo por demonstrações homossexuais. E com o meu ato pensado, eu sabia que estava fazendo com que seu prazer de voyeurismo nunca mais fosse o mesmo. Certamente, ela nunca mais acharia nada igualmente perfeito do que seu amigo soprando um segredo ao ouvido de seu amado. E quando minha boca tocou a pele da orelha de John, e ele não se mexeu de forma alguma, eu contei.
Eu contei a fumaça de minha amada Nicotina saindo pelos meus lábios, em uma nuvem quase branca envolvendo sua face. Eu sabia que aquela fumaça estava beijando sua pele com mais delicadeza do que eu seria capaz, e a falta de brisa fazia com que isso fosse tão lento quanto um processo de slow motion. Ele não tossiu, o que estragaria o quadro; Não se mexeu, não disse uma palavra. De fato, eu poderia quase ver os pêlos de sua nuca se arrepiando pelo cheiro e pelo contato. Ele também amava a minha Nicotina, eu só não estava certo se mais do que Marijuana. E ele sempre fora um apreciador de contatos próximos, especialmente naquela região. Não era um absurdo que eu houvesse gostado de ter provocado essa sensação ao meu amigo, e nem um absurdo que ele a tivesse sentido, porque, de qualquer forma, o sorriso no rosto de Sai era um pouco além de divertido. E seus lábios ocuparam-se demais nele para poderem comentar qualquer coisa. E se não era dito, então, não era real.
2 comments Terça-feira, Julho 1, 2008