Secret (Everlasting Passion for Nicotine)

Terça-feira, Julho 1, 2008

N/A: Narração masculina.

Ainda era cedo. Era uma tarde mal começada e o Sol estava a descer no céu há uma dupla de hora. Era cedo demais para estar na rua, para estar ali. Era cedo demais para o nível de álcool que passeava por minhas veias, e o nível de tontura que se espalhava pelo meu crânio. Meus olhos começavam a quedar-se para a sensação de leveza e sono, e quase fechavam-se dramaticamente enquanto eu concentrava todas as minhas forças para mantê-los com um foco. Eu não estava bêbado. Não havia ficado nem feliz. E, quanto mais eu mergulhava minha língua naquele líquido ardente, mais cansado de tudo eu ficava. Mais exausto.

Eu não havia dormido bem. Não era a primeira vez na minha vida, nem no mês e muito menos naquela fatídica semana. Nada estava errado claramente, mas havia aquela sensação crescendo dentro de mim, como se eu estivesse fazendo alguma coisa muito errada. E não era estranho a mim fazer coisas erradas, mas daquela vez eu estava fugindo dos padrões. Eu estava permitindo que uma garota se apaixonasse por mim e me apaixonando em retorno. Eu estava ficando bem assustado.

Em outros tempos eu não estaria assim, perturbado, receoso, certo de que alguma coisa não estava se passando bem dentro de minha mente. Mas é exatamente como eles dizem: mais você conhece da vida, mais você teme dela. E não há nada que nós, meros mortais diante da grandeza dos acontecimentos, possamos fazer contra isso. Então, eu já havia aprendido que quando um homem gosta de uma mulher e essa mulher gosta desse mesmo homem, eles estão destinados a sofrer para o resto da vida, ou até o momento em que eles passem a se conhecer e a beleza do amor, e o amor em si, acabem. E eu não havia escolhido se eu preferia sofrer por Julia eternamente ou assistir isso acabar.

Porque, a idéia de acabar com algo prazeroso me enlouquecia. Eu era o tipo que mantinha o fogo queimando apenas porque ele era quente. Que mantinha-me embaixo das cobertas porque era aconchegante. Que não atendia o celular porque o toque era divertido. Eu mantinha as coisas acontecendo porque eram agradáveis. Então, estava em uma encruzilhada. Eu não aceitava a idéia de sofrer por uma mulher e muito menos de acabar com um relacionamento confortável.

Eu não estava nem sequer triste. Eu estava incomodado e, quanto mais eu me sentia incomodado, mais eu perdia meu sono e o achava em horas inapropriadas – e isso me incomodava. E mesmo que o assunto fosse interessante, e Sai fosse simpática, e a música fosse animada, e o meu copo estivesse repleto de mais álcool. Mesmo que toda a situação se curvasse para algo agradável, confortável, meu pé continuava batendo no chão, e meu dedo no plástico do copo, e minha boca estalando e meus olhos cismando em fechar. E mesmo que eu não transparecesse tanto a minha agonia, ainda assim eu a sentia. E isso me irritava.

Sai acendeu um cigarro com certa dificuldade à minha frente. Mesmo que estivesse treinando frequentemente – havia enchido todos nós para acender os nossos – ainda era um desastre nisso e eu me segurei para não rir, estando ao mesmo tempo certo de que a sobrancelha erguida em seu rosto era para minha boca fechada com força. Tragou, e estendeu para mim.

Eu segurei entre meus dedos e dirigi à boca. Se Julia estava bem, e eu estava bem, então estávamos bem e não havia motivo para essa sensação estranha. Eu puxei a fumaça, sentindo-a preencher meu pulmão, mas sem sentir nenhum relaxamento automático. Talvez eu estivesse ficando dormente pela vodka, talvez eu estivesse com a mente em outro lugar, ou talvez eu estivesse intoxicado demais para me deixar levar por Nicotina. Mas eu amava Nicotina mais do que eu amava Marijuana ou qualquer outra espécie de fumo. Eu amava o meu relaxamento mais do que qualquer alucinógeno, e eu estava bem com ele, mesmo que ele estivesse distante.

Soltei a fumaça para o ar e devolvi o cigarro. Não cheguei a me prender na imagem de Sai tragando mais uma vez, distraidamente, porque também dirigi o meu olhar para onde o dela estava. Era óbvio, e eu não estava surpreso mais, que estivesse pousado sobre a face de John. Ele era tão comum, como um bastardo, e apesar de ter herdado a aparência de soberano, nunca herdaria também ela. E Sai estava completamente perdida, com sua mente completamente mergulhada ali, divagando sabe-se lá sobre o que, e deixando que seu desejo transparecesse ao menos para mim, que conhecia o seu segredo longe de ser secreto. Ele sentou-se ao meu lado, de frente para ela de pé que correu seus olhos para os meus, receosa de que ele soubesse que também dessa vez a presença dele a embriagara. John não iniciou um assunto, também pensativo, e quando eu fiz uma piada estúpida ambos riram desinteressados. Aceitei mais uma vez o cigarro e me entreguei aos pensamentos.

Porque eu e Julia, em algum momento de nossa história, ficaríamos também assim. Em silêncio, pensando em coisas distintas. E eu me peguei desejando que ambos fôssemos como Sai: sublimes com a presença do outro, sem sequer uma demonstração de reconhecimento dirigida a nós. De fato, eu seria muito mais feliz se o meu amor chegasse ao ponto que chegou o de Sai. A felicidade plena pela presença do amado. A excitação enlouquecedora por uma conversa.

Mas também ali havia o desejo de um pouco de coragem para uma intimidade mais ampla. Eu sabia o quanto ela estava se perguntando se poderia sentar-se ao lado de John e tocar em sua blusa. Ou seu rosto. Ou seu cabelo. Eu sabia o quanto ela queria inclinar-se um pouco e contar a ele um segredo qualquer, para sentir seu cheiro, ou a pele tocando em seus dedos curvados como uma concha. E eu não soube se poderia lidar com essa vontade tão simples e essa dúvida tão grotesca.

Eu puxei o ar pelo filtro do cigarro em minha boca, agora mais relaxado e sentindo o formigamento leve começar. Sai falou qualquer coisa sobre alguém caindo, bêbado demais para manter-se em pé, mas eu não cheguei a rir. Eu me inclinei sobre o corpo de John, sentindo o olhar dela sobre minha pele e seu peito explodindo em dúvida e euforia. Ela era uma slasher neurótica, como sempre deixava claro, procurando o tempo todo por demonstrações homossexuais. E com o meu ato pensado, eu sabia que estava fazendo com que seu prazer de voyeurismo nunca mais fosse o mesmo. Certamente, ela nunca mais acharia nada igualmente perfeito do que seu amigo soprando um segredo ao ouvido de seu amado. E quando minha boca tocou a pele da orelha de John, e ele não se mexeu de forma alguma, eu contei.

Eu contei a fumaça de minha amada Nicotina saindo pelos meus lábios, em uma nuvem quase branca envolvendo sua face. Eu sabia que aquela fumaça estava beijando sua pele com mais delicadeza do que eu seria capaz, e a falta de brisa fazia com que isso fosse tão lento quanto um processo de slow motion. Ele não tossiu, o que estragaria o quadro; Não se mexeu, não disse uma palavra. De fato, eu poderia quase ver os pêlos de sua nuca se arrepiando pelo cheiro e pelo contato. Ele também amava a minha Nicotina, eu só não estava certo se mais do que Marijuana. E ele sempre fora um apreciador de contatos próximos, especialmente naquela região. Não era um absurdo que eu houvesse gostado de ter provocado essa sensação ao meu amigo, e nem um absurdo que ele a tivesse sentido, porque, de qualquer forma, o sorriso no rosto de Sai era um pouco além de divertido. E seus lábios ocuparam-se demais nele para poderem comentar qualquer coisa. E se não era dito, então, não era real.

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2 Comments Add your own

  • 1. Mariê  |  Quarta-feira, Julho 2, 2008 at 12:34 am

    cara, você sabe que eu não entendo muito dessas coisas, mas mesmo assim .. é algo .. sei lá, não sei bem como explicar, mas mesmo pra uma dã como eu, é algo até muito interessante, ainda mais sabendo-se de onde tirastes isso, não ? (:
    muito legal. me impressiono com o seu jeito de escrever, sua facilidade pra levar alguém tão sem imaginação até um climax de uma história dessas. MUITO BOM (:

    Responder
  • 2. bru  |  Quarta-feira, Julho 2, 2008 at 1:09 am

    sei que já comentei no orkut, mas não custa reafirmar que ficou ótima :)

    Responder

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