Tradução (O Mágico Encontro das Línguas)
Terça-feira, Setembro 23, 2008
Por James B. W.
Nem sempre que faz frio, chove.![[Capa] Tradução](http://farm4.static.flickr.com/3193/2841736178_a871264ae9_o.jpg)
Tom sabia disso, mas sentia-se completamente frio e encharcado, ainda que tentasse manter as duas questões em pontas diferentes. Ele não queria – mas, de fato, não havia muito do que queria acontecendo –, apenas tinha certeza de que se a origem é a mesma, então não importa a condição, tudo vem e vai para o mesmo lugar. Se ele se sentia sozinho e chorava talvez, mais do que bifurcadas, as sensações fossem dependentes uma da outra.
E se achou estúpido aí, porque chorar por se sentir solitário não era algo que ele houvesse considerado em toda a sua vida. Era visivelmente algo mais propício a acontecer com Bill.
Ao mesmo tempo, porém, se fosse pensar dessa maneira, estaria definitivamente ferrado. Aparentemente, tudo que ele não havia planejado estava acontecendo, e com uma força maior do que ele poderia prever. E, de repente, estava se sentindo dependente de coisas e pessoas em um sentido um pouco diferente do que ele conhecia até então. Tom estava definitivamente e irrevogavelmente apaixonado pelo seu próprio irmão.
A idéia não veio com essa clareza no início, mas até mesmo os caminhos tortuosos que o levaram a admitir para si mesmo que o sentimento era real, não seriam capazes de fazê-lo acreditar que já esteve em uma condição pior. Ele poderia viver em dúvida para sempre, desde que Bill estivesse por perto. E se tentasse negar, eventualmente Tom também teria que admitir que era ele o único culpado pela distância. Que toda a dor que estava em seu coração vinha também do amor que habitava nele, e de sua incapacidade de reprimi-lo.
Dentro da casa, sua mãe poderia estar caminhando com os olhos vazios querendo saber o motivo de seu pequeno filho ter finalmente a abandonado e se mudado para Berlim. Ali, apoiado no pequeno corrimão para a varanda de sua própria casa, sentado fora de onde era coberto e deixando que a chuva molhasse seu rosto para que ele mesmo não notasse as lágrimas, Tom podia fingir que não era o culpado. Podia fingir para si mesmo que sua dor era o resultado de uma conspiração mundial. E podia sofrer, fingindo que não sofria; Remexer na ferida sem nenhum propósito, visto o quão recente ela era.
O carro parou. Ele pode distinguir entre a chuva, as curvas de metal do carro velho de Georg. Era mesmo um bastardo por aceitar dirigir até Berlim nessa chuva, adiantando a ida de seu irmão. Sem saber muito o que estava fazendo, Tom levantou-se e caminhou até lá, abrindo a porta e encharcando o banco ao entrar.
“Você é mesmo um idiota.” Praguejou.
“É você quem está molhando o meu banco.” Georg achou pertinente lembrá-lo. “Mas por que tanto amor para comigo?”
“Você vai levá-lo de mim, Listing. Você vai levá-lo de mim e não me deu nem tempo para que eu pudesse assimilar essa idéia.” A voz saíra ainda mais chorosa do que ele achava que iria, e ele se viu como uma criança birrona.
“Você não vai com ele?” Georg franziu o cenho. “Ele não me disse isso.”
“Você nem ao menos sabe o motivo de ele estar indo?” Tom se assustou. A amizade entre Bill e Georg não era daquelas onde se havia lacunas.
“Eu achei que fosse apenas mais uma idéia maluca de vocês.”
“Não há mais ’vocês’, Georg. Ele quebrou isso. Agora sou apenas eu e apenas ele.” Tom disse entre dentes, em uma raiva repentina que sua dor lhe provocava. “O bastardo está me matando.”
Georg não estava entendendo muita coisa do que estava acontecendo. Por que Bill decidira ir embora de repente, e por que Tom estava tão desesperado por isso? Por que era tão terrível que alguns quilômetros fossem adicionados a distância de um metro ou dois entre as camas?
Viu Bill sair pela porta da casa, carregando uma caixa aparentemente pesada nas mãos e chutando algo parecido com uma mala com a perna direita. O moreno se abaixou e deixou a caixa ao lado da porta, correndo até o carro por entre a cortina cinza de chuva que caía constantemente. Tom não viu isso acontecer, pois encarava os joelhos, fungando, tentando prender as lágrimas quentes e grossas em seus olhos. Só quando Bill já havia batido no vidro foi que os dois perceberam-se próximos, e a tristeza já existente nos olhos do moreno passou a ser ainda mais desesperadora ao encarar os olhos vermelhos e a aparência molhada do irmão.
Ele mordeu o lábio inferior e curvou as sobrancelhas em um V invertido, como se pedisse desculpas. E Georg, ao ver isso acontecer, não pensou em muita coisa e abaixou o vidro, curvando-se sobre Tom e rugindo alto o suficiente para que Bill ouvisse pela tempestade algo como “Entre logo, ou eu mato você”.
Bill pensou em negar, mas a expressão do amigo foi decisiva e ele abriu a porta do banco de trás, escorregando por ele com mais uma quantidade generosa de água. Georg deu a partida e os gêmeos o indagaram com “O quê?”s indignados, mas inúteis, visto a determinação do motorista. Seja lá o que fizesse isso ser tão doloroso, tinha que ser resolvido, porque ele não iria dirigir o carro do pai em uma tempestade por 200 km se isso fosse fazer dois de seus amigos sofrerem. Mesmo que fosse divertido.
Bill se encostou ao banco de couro, apoiando a cabeça deixando que ela encarasse o teto forrado do carro. Tom limitou-se a encarar a rua que ia ficando para trás, sem querer se questionar sobre onde estavam indo, o que estavam fazendo. Apenas apurou os ouvidos para que, entre a chuva rígida, pudesse ouvir a respiração oscilante de Bill, aproveitando alguns dos indícios de vida – da preciosa vida que tanto estimava – que iria perder com a distância.
Foi em um instante, nem um dos gêmeos estava prestando muita atenção, mas Tom xingou algo quando sua cabeça se chocou contra o porta-luvas. Estava sem cinto, e o choque o fez fechar os olhos por alguns instantes, com dor demais para se sentar direito novamente. Bill debruçou-se sobre o banco, gritando com Tom algo sobre irresponsabilidade enquanto Georg, ainda assustado voltava a seguir com o carro.
“..Você só devia colocar a merda do cinto de segurança, Tom.” Bill resmungou. “Não é como se eu estivesse pedindo muita coisa.”
Tom obedeceu grosseiramente, virando-se para trás com um olhar com mais significado do que o desejado por Bill e disse frio. “Não é como se eu estivesse também.”
“Agora vai me crucificar a cada coisa que eu disser?”
“Você está merecendo.” Tom disse apenas. “Que idéia foi essa de simplesmente se mudar para Berlim, dessa forma? Ainda mais depois do que aconteceu.”
Georg se encolheu em seu banco, sem se dar conta disso.
“Exatamente pelo que aconteceu, Tom.” Bill disse, como se fosse óbvio.
“Ah, é claro. Eu esqueci que você costuma fugir como uma garota quando as coisas começam a ser grandes demais para você.”
“Pelo amor de Deus, Tom. Você sabe que não é assim!”
“Não. Eu não sei. E eu agradeceria se você me dissesse como as coisas são, ao invés de me comunicar da sua mudança menos de 24 horas depois de eu reunir coragem o suficiente para te dizer como eu me sinto.” Tom foi cínico. “Porque eu me lembro de você sussurrando como uma menina, me dizendo que se sentia da mesma forma.”
“Eu me sinto!” Bill praguejou. “Mas isso não é o suficiente!”
E antes que Tom pudesse ser ríspido em qualquer resposta, o carro freou novamente. Tom estava seguro pelo cinto, mas Bill, que estava apoiado no banco, de Georg foi arremessado para frente – quando esmagou sua mão entre o couro e seu corpo – e depois para trás com força.
Uma buzina foi ouvida, evitando qualquer interrogatório que pudesse ser feito por Georg. De qualquer forma, depois de puxar o ar com força, o mais velho chegou a conclusão que o seu momento viria depois.
“Por que você não colocou o cinto?” Tom perguntou grosseiramente.
“Ah, Tom. Quais são as probabilidades da minha cabeça atravessar o pára-brisa daqui de trás?” Bill revirou os olhos.
“Eu espero que muitas.”
Não era incomum que certas coisas fossem ditas entre os irmãos Kaulitz, mas alguma coisa naquele tom, alguma angústia forte e desumana naquela voz doce, fez com que Bill abaixasse a cabeça e prensasse os lábios, para que as lágrimas não caíssem em seu colo.
“Não é justo você agir assim comigo.” Ele sussurrou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.
“Digo o mesmo.” Tom voltou a encarar a janela. “Porque se o que você sente não é o suficiente para você ficar aqui comigo, também não deveria ser o suficiente para você me deixar sozinho.”
“Você está me colocando no papel de vilão, Tom. Quando tudo o que eu estou tentando fazer é te proteger.”
“Eu não quero uma nova mãe, merda. Eu quero um na-“ E parou abruptamente, pensando no que estava prestes a dizer.
Georg deslizou as mãos pelo volante, tentando manter a direção uniforme, desistindo de fazer o mesmo com a sua respiração. Bill não disse nada. Não achou nada conveniente para desviar a atenção do que estivera quase a escapulir pelos lábios do irmão.
“Isso não é novo, Bill. Não é para mim, e pelo que você me disse, não é para você.” Ele constatou. “E não é fraco, porque está me matando e visivelmente matando você também.”
“É-“
“E eu sei que é doloroso, mas eu nunca tinha ficado tão inquestionavelmente feliz quanto eu fiquei ontem.” Tom conclui, antes que Bill conseguisse falar qualquer coisa.
“Mas isso está nos matando, como você disse.” Repetiu. “E isso não vai parar.” E ao dizer isso, Tom viu pelo espelho retrovisor o irmão encostar a mão em seu próprio peito em um gesto simbólico, caracterizando o ‘isso’ melhor do que ele próprio poderia fazer.
E dentro de si, o menino de dreads sentiu tudo se remexer.
“E você acha que não vale a pena?” Tom soou com sua voz fraquinha, como alguém que forçava as cordas vocais a funcionar enquanto seu coração e estômago e fígado e pâncreas trocavam de lugar insistentemente. “Lembre-se de ontem.. Você realmente acha que não vale a pena?”
Georg estacionou o carro na praça pela qual estavam passando, sem parecer realmente que ali seria o destino de fato e, sem se importar com a chuva, saiu do carro sem dizer uma palavra, batendo a porta com um pouco mais de força que o comum. Os dois olharam pelo vidro enquanto a chuva permitia distinguir o amigo, pensando no choque com o que ele estava lidando agora, mas depois que tudo voltou a ser uma grande massa acinzentada, os dois se encararam. Tom soltou-se do cinto e se virou, apoiando-se em seus joelhos e ficando de frente para o irmão.
“Eu não quero que crucifiquem isso. O nosso amor é sagrado. Eu não quero nunca que olhem para nós como se estivéssemos errados.” Bill inclinou a cabeça enquanto falava, deixando que algumas lágrimas inevitáveis corressem pela sua face. “Eu me suicidaria se eu te causasse alguma dor pelo amor que eu sinto por você.”
“É melhor você começar os trabalhos, porque se você não reparou, dor é a única palavra que tem tradução para todas as línguas para mim.”
Bill não disse nada. Não havia o que pudesse dizer.
Se ele fosse capaz, sem sombra de dúvidas, mudaria todas as circunstâncias. A dor de ir embora depois de ter se sentindo mais sublime do que jamais estivera era indescritível. Mas ele suportaria o que quer que fosse se isso significasse proteger Tom, porque, mais do que se sentir sozinho, se sentir culpado por qualquer coisa que ferisse a pessoa mais preciosa de sua vida era suicídio.
“Não tem que ser assim, Tom.. Você precisa ficar bem; Pelo menos, por mim.” Ele pediu em um sussurro ainda mais lento e silencioso do que toda a conversa.
“Sem você?” Tom questionou. “Você fez parte de toda a minha vida.” Tom escorregou um pouco para o lado, deixando a voz soar mais firme. “E se tornou, a cada dia da sua existência, tudo que eu posso chamar de vida. Você quer que eu encontre um modo de ficar bem sem você?” E suspirou, constando como resultado das suas indagações: “Você é absurdo.”
“O que você acha que aconteceria se as pessoas soubessem? Nós não somos só homens, nós somos irmãos.”
“E nós nos amamos mais do que é possível amar alguém. Ou será que eu estou falando só por mim? ..Às vezes eu acho que estou, porque você parece lutar contra o óbvio.”
Bill suspirou e adotou o tom que usaria para explicar algo simples a uma criança. “É óbvio para nós dois. Mas e para o resto do mundo? Você acha que eu vou deixar eles te machucarem?”
“Ninguém precisa saber.”
“Nós admitimos para nós mesmos ontem e o Georg já está tendo um ataque cardíaco lá fora.” Foi a vez de Bill revirar os olhos.
“Mas é o Georg!” Tom bufou. “E eu poderia me mudar para Berlim com você. De que você teria medo lá?”
Bill deixou que o silêncio durasse um pouco. Imaginou-se vivendo em Berlim com o irmão. Havia mentido para Georg, então seu amigo deveria ter lugar para os dois na casa. Gustav, o nome dele. Fora uma combinação um tanto rápida, mas aparentemente ele estava tendo dificuldades para manter o aluguel do apartamento, o que apressara os acertos. E longe da mãe e de Gordon – seu padrasto – não havia muito de quem esconder.
“Você tem idéia do inferno que seriam as nossas vidas?” Bill perguntou, elevando as sobrancelhas. “Nós nem ao menos completamos dezoito anos.”
Tom esticou a mão para tocar o rosto ainda molhado do irmão. A maquiagem forte usual estava borrada e escorria em alguns pontos, e as lágrimas que ele derramara a pouco ainda estavam marcadas com riscos pretos pelas maçãs do rosto de Bill. O cabelo preto já estava para baixo antes da chuva, mas agora grudava ao redor de seu rosto branco.
Tom deslizou os dedos para limpar o delineador escorrido, mas tudo que conseguiu foi que ficasse ainda mais espalhado. Sorriu para Bill. Um sorriso sem dentes, mas um sorriso feliz.
“Você tem idéia do inferno que seria a minha vida aqui?”
Bill não pode evitar sorrir de volta. E os dois aproveitaram a sensação de ter todos os pedaços de seus corações colados de volta, ainda mais firmes.
O moreno deslizou alguns centímetros ainda mais para perto, ficando em uma posição desconfortável por causa do banco entre eles. Levou sua mão até a cintura não-acentuada de Tom, acariciando-o ali, sentido-se frustrado por não poder colar os corpos. Inclinou sua cabeça para mais perto, roçando a ponta do nariz gelado pelo pescoço do irmão, subindo até sua orelha, e depois os lábios cruzando a pele da bochecha até chegar à boca. Eles tocaram os narizes, tentando controlar as respirações enquanto elas faziam que se arrepiassem pelo toque leve que provocavam em seus rostos. As bocas se uniram mais uma vez. Não haviam passado nem 24 horas, mas parecia uma eternidade. A vontade que tinham era de nunca, nunca mais interromperem esse contato.
E, quando as línguas se enroscaram caracterizando o que desejavam fazer a seus corpos, os dois tiveram a mesma certeza. Deveria haver alguma língua, algum dialeto ou qualquer outra maldita coisa em que ‘amor’ não fosse uma palavra só, mas um parágrafo, um testamento. Onde ‘Ich liebe dich’ não fosse algo tão pequeno, tão esmirrado, tão comum. Porque, definitivamente, o que estavam sentindo não era comum.
E o significado daquilo não cabia em três palavras.
Das Ende.
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1.
camila | Sexta-Feira, Janeiro 23, 2009 at 9:24 am
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