O Amanhã Não Existe

Domingo, Outubro 5, 2008

Quebrando a rotina da ficção, tirei um tempo para falar de mim, pensar em mim, ou qualquer coisa que o valha. Isso não vai só contra a rotina do blog, como também contra a rotina da minha cabeça. Eu já havia decidido que “Eu” era um tema um tanto quanto abstrato para ser interessante. Mas está certo. Todo acusado merece uma explicação, seja sobre a sua infância conturbada ou sobre os motivos que o levaram até a cena do crime. E se tratando do assassinato do Tio Shake, eu posso me delongar em inúmeras explicações. Aqui está a primeira.

Tenho andado muito pelas ruas da Internet sem procurar por nada, e às vezes me deparando com fantásticos brechós de idéias. Não poupo os comentários, é claro. Sempre fui boa em dar a minha opinião já que, infelizmente, tenho essa mania incoveniente de ter opinião pra tudo. Lutas internas à parte, volta e meia contesto algumas observações, e cá estou debatendo sozinha de novo sobre uma única frase.

“O amanhã existe.”

Cheguei a ler repetidas vezes tamanho o absurdo que isso soou aos meus ouvidos. O amanhã existe. O amanhã existe.

Pode parecer delírio meu essa reflexão. A alguns olhos a frase pode ter soado simples demais até para se escrever. Não para mim. E eu mostro o porque em uma pergunta. Um questionamento, na realidade. Alguém aqui já viveu o amanhã?

Inúmeras vezes precisei ver as coisas com os olhos para acreditar que eram reais. Ou tocar com a ponta dos dedos. Ou até mesmo sentir. Um sentimento é real, pois nós o sentimos, ainda que de dentro para fora. Mas eu nunca senti o amanhã, nunca vi o amanhã, nunca falei ao telefone ou discuti com o amanhã. Costumo falar sobre ele: “Amanhã terei aula de matemática”, “Amanhã retomarei os estudos”, “Amanhã não estragarei o dia”. Mas, da mesma forma que as coisas tendem a não se concretizar no futuro – Ana Patrícia tem estado ausente vezes demais para ser considerado normal -, nunca farei nada no amanhã. Porque amanhã, e não me culpem pela a esquisitice dessa frase, o amanhã já será o depois de amanhã.

Vivemos na busca pelo dia seguinte. E isso não significa que ele exista. Como uma grande fonte de luz no fim de um corredor escuro que, sem importar o quanto andemos, se mantém distante.

Até Logo.

James Barrie Way

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6 Comments Add your own

  • 1. Mariê  |  Domingo, Outubro 5, 2008 at 8:53 pm

    Você sabe que você tem uma grande fã, não é James? Eu realmente gostaria de experimentar algumas doses do seu Dom, mas ele é seu não e mesmo? É bom ter alguém como você por perto para, quando tudo parece fútil, me fazer refletir um pouco mais sobre coisas que parecem não ter reflexos, coisas opacas misturadas ao dia-a-dia.
    Você me faz sentir bem, porque eu adoro ler o que você escreve. Eu te amo.

    Responder
  • 2. Jaqueline  |  Domingo, Outubro 5, 2008 at 8:59 pm

    Bom, eu acho que o amanhã não existe, é apenas uma grande invenção da nossa mente, para nos manter com objetivos/sonhos e afins.
    Falamos “amanhã eu vou em tal lugar”, mas nem podemos ter certeza disso, nem sabemos se o amanhã irá chegar, aliás, não podemos ter certeza de nada na vida.
    Desculpa o comentário horrível, não estou num bom momento.
    Adorei, mesmo. (L)’

    Responder
  • 3. rê.  |  Domingo, Outubro 5, 2008 at 9:16 pm

    bom, o amanhã existe pois se não existisse como poderiamos sonhar ?
    para mim, ou pelo menos para os que sonham, o amanhã existe sim :)

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  • 4. John  |  Domingo, Outubro 5, 2008 at 10:12 pm

    O futuro só existe nas nossas mentes; não objetivamente. O “amanhã” existe no calendário, mas é dependente do presente. Assim como o passado também o é.

    Responder
  • 5. BluePanther2  |  Segunda-feira, Outubro 27, 2008 at 7:28 pm

    Sempre pensei nisso. Deu uma trabalheira pra explicar, uma vez, então desisti e guardei só pra mim.

    Pois é. O futuro só é futuro quando é presente – mas aí ele não é mais futuro, não é?
    Eu sempre me pergunto como nós temos idéia do tempo que está passando, se sempre estamos no presente.
    …entende?
    É como calcular uma integral, a soma da área de uma função. Temos de somar infinitas áreas retangulares de infinitos intervalos. Ainda não sei como fizeram isso, mas deve ser do próprio instinto humano. Porque o tempo não é nada mais isso, uma integral do presente. Somando todos os infinitos ”agoras”, temos o tempo, e eu nem sei mais o que eu estou falando.
    Por que eu continuo a pensar nisso?

    Responder
  • 6. Flip  |  Segunda-feira, Outubro 27, 2008 at 9:27 pm

    É por isso que é fisicamente impossível viajar no tempo (a ficção científica adora falar disso). O passado e o futuro simplesmente não existem. O passado existiu e o futuro existirá. É impossível ir pra um lugar que não exista.

    Pra mim isso é muito, muito óbvio. Mas tem pessoas que não conseguem enxergar.

    Responder

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