Aurora
Sexta-Feira, Janeiro 23, 2009
Havia passado poucos anos desde que eu me encontrara comigo. Desde de aquele encontro – ligeiramente perturbador, ouso dizer – estava a ter sozinho numa calmaria silenciosa. O silêncio, como tudo que é demais, veio me incomodar, e eu tive de me afastar daquela situação sem glória.

Então, passei a empurrar uma porta. Era pesada, e constantemente machucava-me a mão ou os pés, e eu empurrava a porta para fora – para o Mundo – tal qual eu queria vê-lo. O tempo veio e a porta se abriu, e eu me deparei com lindas paisagens de céu azul e água verde.
Por muito tempo, fiquei naquele cômodo, mal me lembrando do dia em que me esbarrei. Aproveitei o baixo som das ondas, matando o meu silêncio de mansinho, e bebi do céu azul em goles de quem há muito não via água nem açúcar. E aquele suor sem gosto foi doce pra mim.
Depois enjoei, como tudo enjoava-me cedo ou tarde, e dei para empurrar outra porta. Essa ainda mais pesada, de madeira maciça e muita falta de coragem. Dobrava o dedos e por vezes farpas entravam neles, me fazendo chorar miúdo, tirando sangue e madeira de mim.
A cada dia, a força que eu empenhava era maior – nem sequer olhava para a paisagem do Mundo – mas a porta não se mexia. Verão veio e passou, alcancei a Primavera e a tempestade de borboletas, e nada. A porta não se mexia um milímetro.
Foi quando a tempestade chegou que eu me dei conta. Meus dedos entortavam e eu esfregava meus dedos na madeira, mas não havia força. Eu estava tremendo de medo. Era a porta de mim, e eu me vi lavada e trancada do lado de fora, sem poder me abrir.
Era uma sensação esquisita, essa de não conseguir me encontrar. E me lembrei por fim, daquele dia, em que me esbarrei numa esquina qualquer e mal tive tempo para me perguntar meu nome. Eu me acostumara de tal maneira comigo que esquecera de que eu era uma profunda mudança – eu era humana – e passei a me tratar como forma inevitável de mim.
Não o era. Eu era o que fugia do controle. Ser não é, e nunca fui uma opção – embora eu pudesse moldar com meus dedos até que isso viesse a fazer parte do que eu quero. Querer e ser jamais foram sinônimos, embora pudessem vir a se integrar conforme eu me entregava a mim.
O prazer que obtive ao ser atingida por esse entendimento – a mais profunda compreensão de mim – foi melhor do que o ápice que eu jamais vivera. A força passou a coexistir comigo, e não só ao meu lado e à minha volta, como dentro do meu corpo.
E a porta se abriu.
Não é verdade que encontrei um paraíso como o Mundo de fora, mas a visão, embora acinzentada, me motivou.
Eu comecei a fazer faxina, na aurora de mim.
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