Inconclusão
Um silêncio nada sufocante, e mesmo assim a necessidade de dizer um milhão de coisas. Mas como pertubar uma superfície tão serena? O ar era mar em calmaria.
Virou-se algumas vezes. Uma para encará-lo. Outra para esconder o rosto. E mais uma para olhar lateralmente, de forma que sentia seu rosto protegido, mas ainda podia ver que o outro estava ali, de olhos bem abertos para o teto.
Aí pensou por alguns segundos se talvez, por uma ironia do destino, ou um script bem escrito, ele também estaria pensando a mesma coisa. Sentindo o coração disparar de tempos em tempos e aquele amontoado de palavras na garganta que parecia não querer sair nunca.
(Também um sorriso de canto, mas isso já era tão externo que não importava).
E quando abriu a boca, uma, duas, três vezes, e nenhum som se formou, desistiu.
Percebeu que ele ia falar. O segundo de lábios entreabertos e respiração tomada durou horas naquele mundo de mil batimentos por vez, e então:
“Setecentos e oitenta reais”.
Sincronia era algo completamente diferente de estar no mesmo plano, com a mente no mesmo lugar, sentindo a mesma coisa. Sincronia era o encaixe entre uma coisa e outra (certo?). De qualquer jeito, não saberia dizer que coisas eram aquelas.
E aqueles minutos que passou com a declaração de amor entalada na garganta, tentando sair, ou tentando se esconder, conclui-se em simples preocupação da parte do outro. O momento escapou.
Mas foi melhor ficar inconcluído.
Amar e ser amado não é algo simultâneo, contemporâneo, temporal. É abertura pelo que está por vir.