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[CAPA] HOMOGENiC

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Poesia Morta

Achou.

Achou como se achasse o corpo de uma poesia morta há muito tempo, ainda com a face torcida em dor, e quando a tocou sua mão estremeceu de medo. Seu peito estremeceu.

Abriu. Como se fosse uma flor a desabroxar no meio do inferno, porque ele estava frio e o corpo de repente – e contra as regras! – queimava. Queimava na sua morte.

E leu. E era como se estivesse lendo lábios.

Era uma carta. Uma carta com versos de poesia de Vinícius. Poesia velha e conhecida, mas agora arrancada e jazendo em um lugar completamente diferente do de costume. Mortinha da silva.

“Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.” (V.M.)

E era tudo que dizia. Preso a um disco de vinial de Caetano.

Ele sempre odiara Caetano, sempre odiara esse poema do mesmo modo. Até porque, convenhamos, que amor mais feio. Amor doído, amor louco.

Não gostava desse tipo de amor – e ainda mais por tê-lo herdado!

Não precisava de assinaturas para saber quem o escrevera, e a quem dera. Era de seu pai. Pra sua mãe. Há muito tempo, visto que hoje em dia amor é a última coisa que nutrem um pelo outro.

Sempre havia sido assim, então? Uma relação baseada extremamente em facas e dores? Quanto mais eu te machuco, mais eu te amo. Me machuque. Me machuque..

Não! Se negava a acreditar! Não é possível que viesse de uma relação assim, de ódio por cima de ódio, chamando de amor só para ficar bonito. E ódio sem sentido!

Mas então olhou pra si, esfaqueando a pessoa que mais amava na vida para proteger-se. Matando poesias inteiras para fazer os outros olhos encherem d’água e implorarem. Machucando.. por amor. E então percebeu que, além de não fazer sentido nenhum, era o mais certo. Era o sua melhor declaração.

Amava. Logo, machucava.

E para quê?

Para quê amava, em primeiro lugar?

1 comment Quinta-feira, Maio 14, 2009

Aurora

Havia passado poucos anos desde que eu me encontrara comigo. Desde de aquele encontro – ligeiramente perturbador, ouso dizer – estava a ter sozinho numa calmaria silenciosa. O silêncio, como tudo que é demais, veio me incomodar, e eu tive de me afastar daquela situação sem glória.

Então, passei a empurrar uma porta. Era pesada, e constantemente machucava-me a mão ou os pés, e eu empurrava a porta para fora – para o Mundo – tal qual eu queria vê-lo. O tempo veio e a porta se abriu, e eu me deparei com lindas paisagens de céu azul e água verde.

Por muito tempo, fiquei naquele cômodo, mal me lembrando do dia em que me esbarrei. Aproveitei o baixo som das ondas, matando o meu silêncio de mansinho, e bebi do céu azul em goles de quem há muito não via água nem açúcar. E aquele suor sem gosto foi doce pra mim.

Depois enjoei, como tudo enjoava-me cedo ou tarde, e dei para empurrar outra porta. Essa ainda mais pesada, de madeira maciça e muita falta de coragem. Dobrava o dedos e por vezes farpas entravam neles, me fazendo chorar miúdo, tirando sangue e madeira de mim.

A cada dia, a força que eu empenhava era maior – nem sequer olhava para a paisagem do Mundo – mas a porta não se mexia. Verão veio e passou, alcancei a Primavera e a tempestade de borboletas, e nada. A porta não se mexia um milímetro.

Foi quando a tempestade chegou que eu me dei conta. Meus dedos entortavam e eu esfregava meus dedos na madeira, mas não havia força. Eu estava tremendo de medo. Era a porta de mim, e eu me vi lavada e trancada do lado de fora, sem poder me abrir.

Era uma sensação esquisita, essa de não conseguir me encontrar. E me lembrei por fim, daquele dia, em que me esbarrei numa esquina qualquer e mal tive tempo para me perguntar meu nome. Eu me acostumara de tal maneira comigo que esquecera de que eu era uma profunda mudança – eu era humana – e passei a me tratar como forma inevitável de mim.

Não o era. Eu era o que fugia do controle. Ser não é, e nunca fui uma opção – embora eu pudesse moldar com meus dedos até que isso viesse a fazer parte do que eu quero. Querer e ser jamais foram sinônimos, embora pudessem vir a se integrar conforme eu me entregava a mim.

O prazer que obtive ao ser atingida por esse entendimento – a mais profunda compreensão de mim – foi melhor do que o ápice que eu jamais vivera. A força passou a coexistir comigo, e não só ao meu lado e à minha volta, como dentro do meu corpo.

E a porta se abriu.

Não é verdade que encontrei um paraíso como o Mundo de fora, mas a visão, embora acinzentada, me motivou.

Eu comecei a fazer faxina, na aurora de mim.

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O Monólogo de Anita 003

Querida Megan,

Ocorreu-me agora que não disse nem sequer uma única vez na minha carta anterior que te amava. Pois peço que me perdoe por, ao me inebriar com o sentimento, esquecer de nomeá-lo; Eu te amo.

Estou enviando uma fotografia. Charlotte convenceu-me a ir à Feira de Arte e a tiramos lá. Foi um passeio com pouco sentido já que não estou freqüentando as aulas, mas diverti-me um pouco.

Mamãe saiu do quarto na quarta-feira. Ela não me olhou nos olhos, mas pediu para que eu voltasse ao colégio na segunda-feira e me comunicou que eu não poderia mais ir à casa de Charlotte, mas se quisesse passear na quadra com elas, poderia se convencesse Angela a me acompanhar. Não pode dizer se Lousie sentiu, mas Charlotte estava aborrecida quando Gael a encontrou. Ele chegou sorrindo em casa e tem sido muito gentil comigo, o que me leva a crer que ele esteja superando, enfim. Não sei ao certo como explicar, mas Gael sempre me pareceu muito livre de qualquer conceito conservador demais.

Angela voltou a falar comigo normalmente, e desejou-me uma “Boa noite, minha pequena” ontem à noite. Estou me sentindo um pouco menos triste.

Chegou um mensageiro da Família Kaulitz na quinta-feira. Gael foi grosso com ele, mas mamãe o recebeu. Eu fui proibida de descer até que ele se retirasse e meu irmão não quis dizer-me nada sobre o assunto. Angela chegou a disser que o que quer que acontecesse, eu deveria ser grata. Não estou gostando muito, pois acho que o senhor Kaulitz resolveu enfim, pedir a minha mão para um de seus filhos. Talvez eu force um pouco mais Gael. Ele tem de me contar qualquer coisa.

Sinto sua falta.

Não pude mais passar por perto de sua casa, então estou sentindo falta dos portões e do jardim também. Tudo que me possa lembrar você está sendo retirado de mim, mas não fique triste querida, você é o meu amorzinho. Eu carrego você no meu coração e isso eles não poderão me tirar. Enquanto eu existir, eu te amarei, sem portões ou paredes; Um amor sem fronteiras, sem saudades, sem distância.

Estive pensando, na noite anterior a sua partida, o que mais me faria falta. Até agora, o mais tenho notado é a tristeza constante que ficou para trás, nessa cidade. Sem saber, minha Meg, você era todo o brilho e alegria que meus olhos percebiam. Canto a sua música a todo o instante e estou me empenhando nas minhas lições de arte, para poder gravar o seu rosto em um pouco mais do que minha memória, já que sua fotografia foi tirada de mim. Não que eu possa esquecer o seu rosto, mas desejo olhar para fora de mim e também te ver, nem que em uma pintura mal feita.

Talvez eu peça a Gael. Ele formou-se finalmente no curso de artes, mesmo contra a vontade de mamãe.

Agora escreverei a carta de Charlotte, que Gael entregará para mim, assim como tem postado as tuas.

Com amor,

Anita Márquez

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O Amanhã Não Existe

Quebrando a rotina da ficção, tirei um tempo para falar de mim, pensar em mim, ou qualquer coisa que o valha. Isso não vai só contra a rotina do blog, como também contra a rotina da minha cabeça. Eu já havia decidido que “Eu” era um tema um tanto quanto abstrato para ser interessante. Mas está certo. Todo acusado merece uma explicação, seja sobre a sua infância conturbada ou sobre os motivos que o levaram até a cena do crime. E se tratando do assassinato do Tio Shake, eu posso me delongar em inúmeras explicações. Aqui está a primeira.

Tenho andado muito pelas ruas da Internet sem procurar por nada, e às vezes me deparando com fantásticos brechós de idéias. Não poupo os comentários, é claro. Sempre fui boa em dar a minha opinião já que, infelizmente, tenho essa mania incoveniente de ter opinião pra tudo. Lutas internas à parte, volta e meia contesto algumas observações, e cá estou debatendo sozinha de novo sobre uma única frase.

“O amanhã existe.”

Cheguei a ler repetidas vezes tamanho o absurdo que isso soou aos meus ouvidos. O amanhã existe. O amanhã existe.

Pode parecer delírio meu essa reflexão. A alguns olhos a frase pode ter soado simples demais até para se escrever. Não para mim. E eu mostro o porque em uma pergunta. Um questionamento, na realidade. Alguém aqui já viveu o amanhã?

Inúmeras vezes precisei ver as coisas com os olhos para acreditar que eram reais. Ou tocar com a ponta dos dedos. Ou até mesmo sentir. Um sentimento é real, pois nós o sentimos, ainda que de dentro para fora. Mas eu nunca senti o amanhã, nunca vi o amanhã, nunca falei ao telefone ou discuti com o amanhã. Costumo falar sobre ele: “Amanhã terei aula de matemática”, “Amanhã retomarei os estudos”, “Amanhã não estragarei o dia”. Mas, da mesma forma que as coisas tendem a não se concretizar no futuro – Ana Patrícia tem estado ausente vezes demais para ser considerado normal -, nunca farei nada no amanhã. Porque amanhã, e não me culpem pela a esquisitice dessa frase, o amanhã já será o depois de amanhã.

Vivemos na busca pelo dia seguinte. E isso não significa que ele exista. Como uma grande fonte de luz no fim de um corredor escuro que, sem importar o quanto andemos, se mantém distante.

Até Logo.

James Barrie Way

6 comments Domingo, Outubro 5, 2008

Daniel Na Cova Dos Leões

Por James B. W.

Eu dancei com a música. Eu pude segurar em seus ombros e tocar sua pele macia, e eu dancei com a música. Lentamente, rodando em meu próprio eixo, eu dancei com a música. E eu toquei nos fios de cabelo da música com a ponta dos dedos, enquanto me entorpecia com o cheiro de centeio que desprendia dali. Era similar ao cheiro do campo de centeio para o qual nós costumávamos correr e nos esconder para dançar a nossa música íntima. Eu dancei com a música. E eu senti a ponta de seus seios quentes de liberdade tocarem os meus timidamente, me lembrando um abraço aprisionado de meses atrás entre nós duas. Eu dancei com a música. E eu segurei a música em meus braços. E eu encostei minha cabeça pesada de idéias e lembranças em seu tórax coberto de um cetim leve e eu imaginei. Eu imaginei que eu dançava sem a música, sem som, sem voz, sem nada. Eu imaginei que era um tórax firme, que era um cheiro de centeio forte, que era tudo real. Eu dancei com a música, e eu pude dirigi-la para casa.

Add comment Quarta-feira, Outubro 1, 2008

Tradução (O Mágico Encontro das Línguas)

Por James B. W.

Nem sempre que faz frio, chove.

Tom sabia disso, mas sentia-se completamente frio e encharcado, ainda que tentasse manter as duas questões em pontas diferentes. Ele não queria – mas, de fato, não havia muito do que queria acontecendo –, apenas tinha certeza de que se a origem é a mesma, então não importa a condição, tudo vem e vai para o mesmo lugar. Se ele se sentia sozinho e chorava talvez, mais do que bifurcadas, as sensações fossem dependentes uma da outra.

E se achou estúpido aí, porque chorar por se sentir solitário não era algo que ele houvesse considerado em toda a sua vida. Era visivelmente algo mais propício a acontecer com Bill.

Ao mesmo tempo, porém, se fosse pensar dessa maneira, estaria definitivamente ferrado. Aparentemente, tudo que ele não havia planejado estava acontecendo, e com uma força maior do que ele poderia prever. E, de repente, estava se sentindo dependente de coisas e pessoas em um sentido um pouco diferente do que ele conhecia até então. Tom estava definitivamente e irrevogavelmente apaixonado pelo seu próprio irmão.

A idéia não veio com essa clareza no início, mas até mesmo os caminhos tortuosos que o levaram a admitir para si mesmo que o sentimento era real, não seriam capazes de fazê-lo acreditar que já esteve em uma condição pior. Ele poderia viver em dúvida para sempre, desde que Bill estivesse por perto. E se tentasse negar, eventualmente Tom também teria que admitir que era ele o único culpado pela distância. Que toda a dor que estava em seu coração vinha também do amor que habitava nele, e de sua incapacidade de reprimi-lo.

Dentro da casa, sua mãe poderia estar caminhando com os olhos vazios querendo saber o motivo de seu pequeno filho ter finalmente a abandonado e se mudado para Berlim. Ali, apoiado no pequeno corrimão para a varanda de sua própria casa, sentado fora de onde era coberto e deixando que a chuva molhasse seu rosto para que ele mesmo não notasse as lágrimas, Tom podia fingir que não era o culpado. Podia fingir para si mesmo que sua dor era o resultado de uma conspiração mundial. E podia sofrer, fingindo que não sofria; Remexer na ferida sem nenhum propósito, visto o quão recente ela era.

O carro parou. Ele pode distinguir entre a chuva, as curvas de metal do carro velho de Georg. Era mesmo um bastardo por aceitar dirigir até Berlim nessa chuva, adiantando a ida de seu irmão. Sem saber muito o que estava fazendo, Tom levantou-se e caminhou até lá, abrindo a porta e encharcando o banco ao entrar.

“Você é mesmo um idiota.” Praguejou.

“É você quem está molhando o meu banco.” Georg achou pertinente lembrá-lo. “Mas por que tanto amor para comigo?”

“Você vai levá-lo de mim, Listing. Você vai levá-lo de mim e não me deu nem tempo para que eu pudesse assimilar essa idéia.” A voz saíra ainda mais chorosa do que ele achava que iria, e ele se viu como uma criança birrona.

“Você não vai com ele?” Georg franziu o cenho. “Ele não me disse isso.

“Você nem ao menos sabe o motivo de ele estar indo?” Tom se assustou. A amizade entre Bill e Georg não era daquelas onde se havia lacunas.

“Eu achei que fosse apenas mais uma idéia maluca de vocês.”

“Não há mais ’vocês’, Georg. Ele quebrou isso. Agora sou apenas eu e apenas ele.” Tom disse entre dentes, em uma raiva repentina que sua dor lhe provocava. “O bastardo está me matando.

Georg não estava entendendo muita coisa do que estava acontecendo. Por que Bill decidira ir embora de repente, e por que Tom estava tão desesperado por isso? Por que era tão terrível que alguns quilômetros fossem adicionados a distância de um metro ou dois entre as camas?

Viu Bill sair pela porta da casa, carregando uma caixa aparentemente pesada nas mãos e chutando algo parecido com uma mala com a perna direita. O moreno se abaixou e deixou a caixa ao lado da porta, correndo até o carro por entre a cortina cinza de chuva que caía constantemente. Tom não viu isso acontecer, pois encarava os joelhos, fungando, tentando prender as lágrimas quentes e grossas em seus olhos. Só quando Bill já havia batido no vidro foi que os dois perceberam-se próximos, e a tristeza já existente nos olhos do moreno passou a ser ainda mais desesperadora ao encarar os olhos vermelhos e a aparência molhada do irmão.

Ele mordeu o lábio inferior e curvou as sobrancelhas em um V invertido, como se pedisse desculpas. E Georg, ao ver isso acontecer, não pensou em muita coisa e abaixou o vidro, curvando-se sobre Tom e rugindo alto o suficiente para que Bill ouvisse pela tempestade algo como “Entre logo, ou eu mato você”.

Bill pensou em negar, mas a expressão do amigo foi decisiva e ele abriu a porta do banco de trás, escorregando por ele com mais uma quantidade generosa de água. Georg deu a partida e os gêmeos o indagaram com “O quê?”s indignados, mas inúteis, visto a determinação do motorista. Seja lá o que fizesse isso ser tão doloroso, tinha que ser resolvido, porque ele não iria dirigir o carro do pai em uma tempestade por 200 km se isso fosse fazer dois de seus amigos sofrerem. Mesmo que fosse divertido.

Bill se encostou ao banco de couro, apoiando a cabeça deixando que ela encarasse o teto forrado do carro. Tom limitou-se a encarar a rua que ia ficando para trás, sem querer se questionar sobre onde estavam indo, o que estavam fazendo. Apenas apurou os ouvidos para que, entre a chuva rígida, pudesse ouvir a respiração oscilante de Bill, aproveitando alguns dos indícios de vida – da preciosa vida que tanto estimava – que iria perder com a distância.

Foi em um instante, nem um dos gêmeos estava prestando muita atenção, mas Tom xingou algo quando sua cabeça se chocou contra o porta-luvas. Estava sem cinto, e o choque o fez fechar os olhos por alguns instantes, com dor demais para se sentar direito novamente. Bill debruçou-se sobre o banco, gritando com Tom algo sobre irresponsabilidade enquanto Georg, ainda assustado voltava a seguir com o carro.

“..Você só devia colocar a merda do cinto de segurança, Tom.” Bill resmungou. “Não é como se eu estivesse pedindo muita coisa.”

Tom obedeceu grosseiramente, virando-se para trás com um olhar com mais significado do que o desejado por Bill e disse frio. “Não é como se eu estivesse também.”

“Agora vai me crucificar a cada coisa que eu disser?”

“Você está merecendo.” Tom disse apenas. “Que idéia foi essa de simplesmente se mudar para Berlim, dessa forma? Ainda mais depois do que aconteceu.”

Georg se encolheu em seu banco, sem se dar conta disso.

Exatamente pelo que aconteceu, Tom.” Bill disse, como se fosse óbvio.

“Ah, é claro. Eu esqueci que você costuma fugir como uma garota quando as coisas começam a ser grandes demais para você.”

“Pelo amor de Deus, Tom. Você sabe que não é assim!”

“Não. Eu não sei. E eu agradeceria se você me dissesse como as coisas são, ao invés de me comunicar da sua mudança menos de 24 horas depois de eu reunir coragem o suficiente para te dizer como eu me sinto.” Tom foi cínico. “Porque eu me lembro de você sussurrando como uma menina, me dizendo que se sentia da mesma forma.”

“Eu me sinto!” Bill praguejou. “Mas isso não é o suficiente!”

E antes que Tom pudesse ser ríspido em qualquer resposta, o carro freou novamente. Tom estava seguro pelo cinto, mas Bill, que estava apoiado no banco, de Georg foi arremessado para frente – quando esmagou sua mão entre o couro e seu corpo – e depois para trás com força.

Uma buzina foi ouvida, evitando qualquer interrogatório que pudesse ser feito por Georg. De qualquer forma, depois de puxar o ar com força, o mais velho chegou a conclusão que o seu momento viria depois.

“Por que você não colocou o cinto?” Tom perguntou grosseiramente.

“Ah, Tom. Quais são as probabilidades da minha cabeça atravessar o pára-brisa daqui de trás?” Bill revirou os olhos.

“Eu espero que muitas.”

Não era incomum que certas coisas fossem ditas entre os irmãos Kaulitz, mas alguma coisa naquele tom, alguma angústia forte e desumana naquela voz doce, fez com que Bill abaixasse a cabeça e prensasse os lábios, para que as lágrimas não caíssem em seu colo.

“Não é justo você agir assim comigo.” Ele sussurrou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.

“Digo o mesmo.” Tom voltou a encarar a janela. “Porque se o que você sente não é o suficiente para você ficar aqui comigo, também não deveria ser o suficiente para você me deixar sozinho.”

“Você está me colocando no papel de vilão, Tom. Quando tudo o que eu estou tentando fazer é te proteger.”

“Eu não quero uma nova mãe, merda. Eu quero um na-“ E parou abruptamente, pensando no que estava prestes a dizer.

Georg deslizou as mãos pelo volante, tentando manter a direção uniforme, desistindo de fazer o mesmo com a sua respiração. Bill não disse nada. Não achou nada conveniente para desviar a atenção do que estivera quase a escapulir pelos lábios do irmão.

“Isso não é novo, Bill. Não é para mim, e pelo que você me disse, não é para você.” Ele constatou. “E não é fraco, porque está me matando e visivelmente matando você também.”

“É-“

“E eu sei que é doloroso, mas eu nunca tinha ficado tão inquestionavelmente feliz quanto eu fiquei ontem.” Tom conclui, antes que Bill conseguisse falar qualquer coisa.

“Mas isso está nos matando, como você disse.” Repetiu. “E isso não vai parar.” E ao dizer isso, Tom viu pelo espelho retrovisor o irmão encostar a mão em seu próprio peito em um gesto simbólico, caracterizando o ‘isso’ melhor do que ele próprio poderia fazer.

E dentro de si, o menino de dreads sentiu tudo se remexer.

“E você acha que não vale a pena?” Tom soou com sua voz fraquinha, como alguém que forçava as cordas vocais a funcionar enquanto seu coração e estômago e fígado e pâncreas trocavam de lugar insistentemente. “Lembre-se de ontem.. Você realmente acha que não vale a pena?”

Georg estacionou o carro na praça pela qual estavam passando, sem parecer realmente que ali seria o destino de fato e, sem se importar com a chuva, saiu do carro sem dizer uma palavra, batendo a porta com um pouco mais de força que o comum. Os dois olharam pelo vidro enquanto a chuva permitia distinguir o amigo, pensando no choque com o que ele estava lidando agora, mas depois que tudo voltou a ser uma grande massa acinzentada, os dois se encararam. Tom soltou-se do cinto e se virou, apoiando-se em seus joelhos e ficando de frente para o irmão.

“Eu não quero que crucifiquem isso. O nosso amor é sagrado. Eu não quero nunca que olhem para nós como se estivéssemos errados.” Bill inclinou a cabeça enquanto falava, deixando que algumas lágrimas inevitáveis corressem pela sua face. “Eu me suicidaria se eu te causasse alguma dor pelo amor que eu sinto por você.”

“É melhor você começar os trabalhos, porque se você não reparou, dor é a única palavra que tem tradução para todas as línguas para mim.”

Bill não disse nada. Não havia o que pudesse dizer.

Se ele fosse capaz, sem sombra de dúvidas, mudaria todas as circunstâncias. A dor de ir embora depois de ter se sentindo mais sublime do que jamais estivera era indescritível. Mas ele suportaria o que quer que fosse se isso significasse proteger Tom, porque, mais do que se sentir sozinho, se sentir culpado por qualquer coisa que ferisse a pessoa mais preciosa de sua vida era suicídio.

“Não tem que ser assim, Tom.. Você precisa ficar bem; Pelo menos, por mim.” Ele pediu em um sussurro ainda mais lento e silencioso do que toda a conversa.

“Sem você?” Tom questionou. “Você fez parte de toda a minha vida.” Tom escorregou um pouco para o lado, deixando a voz soar mais firme. “E se tornou, a cada dia da sua existência, tudo que eu posso chamar de vida. Você quer que eu encontre um modo de ficar bem sem você?” E suspirou, constando como resultado das suas indagações: “Você é absurdo.”

“O que você acha que aconteceria se as pessoas soubessem? Nós não somos só homens, nós somos irmãos.”

“E nós nos amamos mais do que é possível amar alguém. Ou será que eu estou falando só por mim? ..Às vezes eu acho que estou, porque você parece lutar contra o óbvio.”

Bill suspirou e adotou o tom que usaria para explicar algo simples a uma criança. “É óbvio para nós dois. Mas e para o resto do mundo? Você acha que eu vou deixar eles te machucarem?”

“Ninguém precisa saber.”

“Nós admitimos para nós mesmos ontem e o Georg já está tendo um ataque cardíaco lá fora.” Foi a vez de Bill revirar os olhos.

“Mas é o Georg!” Tom bufou. “E eu poderia me mudar para Berlim com você. De que você teria medo lá?”

Bill deixou que o silêncio durasse um pouco. Imaginou-se vivendo em Berlim com o irmão. Havia mentido para Georg, então seu amigo deveria ter lugar para os dois na casa. Gustav, o nome dele. Fora uma combinação um tanto rápida, mas aparentemente ele estava tendo dificuldades para manter o aluguel do apartamento, o que apressara os acertos. E longe da mãe e de Gordon – seu padrasto – não havia muito de quem esconder.

“Você tem idéia do inferno que seriam as nossas vidas?” Bill perguntou, elevando as sobrancelhas. “Nós nem ao menos completamos dezoito anos.”

Tom esticou a mão para tocar o rosto ainda molhado do irmão. A maquiagem forte usual estava borrada e escorria em alguns pontos, e as lágrimas que ele derramara a pouco ainda estavam marcadas com riscos pretos pelas maçãs do rosto de Bill. O cabelo preto já estava para baixo antes da chuva, mas agora grudava ao redor de seu rosto branco.

Tom deslizou os dedos para limpar o delineador escorrido, mas tudo que conseguiu foi que ficasse ainda mais espalhado. Sorriu para Bill. Um sorriso sem dentes, mas um sorriso feliz.

“Você tem idéia do inferno que seria a minha vida aqui?”

Bill não pode evitar sorrir de volta. E os dois aproveitaram a sensação de ter todos os pedaços de seus corações colados de volta, ainda mais firmes.

O moreno deslizou alguns centímetros ainda mais para perto, ficando em uma posição desconfortável por causa do banco entre eles. Levou sua mão até a cintura não-acentuada de Tom, acariciando-o ali, sentido-se frustrado por não poder colar os corpos. Inclinou sua cabeça para mais perto, roçando a ponta do nariz gelado pelo pescoço do irmão, subindo até sua orelha, e depois os lábios cruzando a pele da bochecha até chegar à boca. Eles tocaram os narizes, tentando controlar as respirações enquanto elas faziam que se arrepiassem pelo toque leve que provocavam em seus rostos. As bocas se uniram mais uma vez. Não haviam passado nem 24 horas, mas parecia uma eternidade. A vontade que tinham era de nunca, nunca mais interromperem esse contato.

E, quando as línguas se enroscaram caracterizando o que desejavam fazer a seus corpos, os dois tiveram a mesma certeza. Deveria haver alguma língua, algum dialeto ou qualquer outra maldita coisa em que ‘amor’ não fosse uma palavra só, mas um parágrafo, um testamento. Onde ‘Ich liebe dich’ não fosse algo tão pequeno, tão esmirrado, tão comum. Porque, definitivamente, o que estavam sentindo não era comum.

E o significado daquilo não cabia em três palavras.

Das Ende.

1 comment Terça-feira, Setembro 23, 2008

Mondlicht (Die Unendlichkeit Ist Nicht Mehr Weit)

Por James B.W.

Tom não sabia explicar como as coisas haviam avançado daquela forma. De fato, uma coisa não só acontece depois da outra como uma coisa leva a outra. E o tempo todo, alguma coisa estava acontecendo. Mas ao sentir seus lábios sendo comprimidos contra o do outro não podia deixar de se perguntar como.

Ele não se lembrava de ter imaginado isso acontecer nunca. Talvez inconscientemente estivesse desejando isso – de outra forma não teria sido tão absurdamente rápido –, mas sem sombra de dúvidas jamais fora capaz de racionalizar. Nem da primeira vez, nem da segunda e nem dessa vez. Era um pouco difícil demais responder suas próprias perguntas naquela condição.

Ofegou contra os lábios finos do outro. Era enlouquecedor o modo com que as bocas se tocavam e as mãos se exploravam. Quase melodiosamente, quase como tocar um instrumento, quase como tocar a si mesmo. Colaram a testa e se encararam por um segundo. Tom achou apropriado sorrir porque precisava aliviar a pressão que aquela felicidade lhe causava, e foi inevitável manter os lábios com as pontas levantadas quando recebeu um sorriso de volta. Os dentes eram mais tortos que os seus próprios em alguns pontos, mas o outro os faziam parecer ainda mais inocentes naquela face feminina. Sorria como se sorrir fosse parte de uma brincadeira infantil.

Beijava-o da mesma forma.

Era engraçado se focar no fato de que, de irmãos, passaram para melhores amigos. E de melhores amigos para companheiros de banda. E de companheiros de banda para companheiros de cama. E daí para uma dependência emocional incontrolável. Mas era impossível não se maravilhar com isso. Eventualmente ficariam assustados, mas ali não havia muita coisa que eles pudessem dizer ou fazer. Não havia o que temer enquanto se escondessem um nos braços do outro. Não havia um mundo lá fora.

O moreno rodou a testa, aproximando um dos lados de suas faces. Os cílios se acariciavam de leve, fazendo com que algo gostoso e inquieto subisse pelo abdômen de Tom até sua garganta. Ele tentou reprimir, mas um gemido tímido veio quando os cantos dos seus lábios se tocaram e Bill prendeu os seus entre os dele. Depois, roçaram os narizes e os lábios em uma provocação mútua. Tom deixou que sua boca desenhasse no rosto do irmão, descendo ao queixo e subindo pela linha do maxilar até a ponta de sua orelha. Suspirou ali, e o ar fez com que os pêlos da nuca de Bill se arrepiassem.

Nunca haviam sentido mais pertencentes a algo do que naquele momento.

Bill puxou a camisa de Tom para cima, dando o primeiro passo para que o outro a retirasse completamente. Tocou a cintura quase não acentuada do irmão enquanto este distribuía beijos tímidos pela curva de seu pescoço. Deram alguns passos para trás, de forma que Tom se sentou no braço do sofá encaixando Bill entre suas pernas. As ereções despertavam com cada mínimo toque e Tom começou a pensar se ainda era possível ficar mais duro do que estava.

Bill se curvou ainda mais sobre ele, e ele alcançou a sua nuca, roçando os dentes lentamente no caminho de ida e de volta. Sem se controlar, apenas pela sensação que obteve, o moreno comprimiu com força os quadris por um tempo e os afastou. Duas vezes.

Tom deslizou suas mãos para dentro da camisa de Bill quando voltaram aos trabalhos dos lábios e língua. A puxou para cima quase desistindo ao necessitar interromper o beijo o mínimo que fosse. Os tórax se encontraram em um toque frio, mas ofegante. Oscilavam entre o desespero e a calma, o segundo como que para prolongar o primeiro.

Não queriam parar jamais.

Motivado por algo provavelmente ainda maior do que desejo – ele não se lembrava de ter se sentindo assim nunca – Tom desafivelou o cinto e desabotoou a calça do irmão, rolando seus dedos para dentro da mesma e tocando o membro rígido pelo tecido de seda de sua boxer. Acariciou-o com força longamente quando um gemido soou contra os seus lábios.

Bill deslizou a mão da mesma forma, tocando mais intimamente do que nunca o seu próprio irmão. Um beijo era um beijo. Umas carícias eram umas carícias. Isso era definitivamente mais, e irrevogavelmente bom.

Tocaram-se por cima das boxers por um tempo, até que isso não fosse suficiente. E em toques fortes e leves; E beijos, e mordidas e encontro de línguas com línguas, línguas com pele, pele e tecido, o líquido veio. Ainda meio vestidos e ofegantes, sem muito mais do que trabalhos manuais tímidos, jorraram toda a excitação para fora em uma falta de controle impiedosa.

Mas era inevitável.

Naquela noite, quando ambos rolaram na cama e Tom aconchegou Bill em seus braços finos, estavam completos. E depois beijar o topo da cabeça do irmão, pouco antes de adormecer, ouviu o moreno proferir em sua fala rápida e suave – oscilando entre o ritmo, a afinação e os sussurros contra seu peito nu – a música que há tempos havia composto:

“Die Wärme trägt und bis in die Unendlichkeit. Alles treibt an uns vorbei, im Mondlicht sind nur noch wir zwei. Die Unendlichkeit ist nicht mehr weit. Die Unendlichkeit ist jetzt nicht mehr weit..”

“O calor nos carrega na infinidade. Tudo se amontoa ao nosso redor, e na luz do luar existe apenas nós dois. O Infinito não é tão distante. O Infinito não é tão distante agora.”

E ficou subentendido e completamente presente entre os dois corpos que aquilo era mais do que inevitável. Era evitável.

Das Ende.

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Those who bring sunshine into the lives of others cannot keep it from themselves. J.M. Barrie

O Tempo

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