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[CAPA] HOMOGENiC

Add comment Quinta-feira, Maio 14, 2009

Aurora

Havia passado poucos anos desde que eu me encontrara comigo. Desde de aquele encontro – ligeiramente perturbador, ouso dizer – estava a ter sozinho numa calmaria silenciosa. O silêncio, como tudo que é demais, veio me incomodar, e eu tive de me afastar daquela situação sem glória.

Então, passei a empurrar uma porta. Era pesada, e constantemente machucava-me a mão ou os pés, e eu empurrava a porta para fora – para o Mundo – tal qual eu queria vê-lo. O tempo veio e a porta se abriu, e eu me deparei com lindas paisagens de céu azul e água verde.

Por muito tempo, fiquei naquele cômodo, mal me lembrando do dia em que me esbarrei. Aproveitei o baixo som das ondas, matando o meu silêncio de mansinho, e bebi do céu azul em goles de quem há muito não via água nem açúcar. E aquele suor sem gosto foi doce pra mim.

Depois enjoei, como tudo enjoava-me cedo ou tarde, e dei para empurrar outra porta. Essa ainda mais pesada, de madeira maciça e muita falta de coragem. Dobrava o dedos e por vezes farpas entravam neles, me fazendo chorar miúdo, tirando sangue e madeira de mim.

A cada dia, a força que eu empenhava era maior – nem sequer olhava para a paisagem do Mundo – mas a porta não se mexia. Verão veio e passou, alcancei a Primavera e a tempestade de borboletas, e nada. A porta não se mexia um milímetro.

Foi quando a tempestade chegou que eu me dei conta. Meus dedos entortavam e eu esfregava meus dedos na madeira, mas não havia força. Eu estava tremendo de medo. Era a porta de mim, e eu me vi lavada e trancada do lado de fora, sem poder me abrir.

Era uma sensação esquisita, essa de não conseguir me encontrar. E me lembrei por fim, daquele dia, em que me esbarrei numa esquina qualquer e mal tive tempo para me perguntar meu nome. Eu me acostumara de tal maneira comigo que esquecera de que eu era uma profunda mudança – eu era humana – e passei a me tratar como forma inevitável de mim.

Não o era. Eu era o que fugia do controle. Ser não é, e nunca fui uma opção – embora eu pudesse moldar com meus dedos até que isso viesse a fazer parte do que eu quero. Querer e ser jamais foram sinônimos, embora pudessem vir a se integrar conforme eu me entregava a mim.

O prazer que obtive ao ser atingida por esse entendimento – a mais profunda compreensão de mim – foi melhor do que o ápice que eu jamais vivera. A força passou a coexistir comigo, e não só ao meu lado e à minha volta, como dentro do meu corpo.

E a porta se abriu.

Não é verdade que encontrei um paraíso como o Mundo de fora, mas a visão, embora acinzentada, me motivou.

Eu comecei a fazer faxina, na aurora de mim.

Add comment Sexta-Feira, Janeiro 23, 2009

O Amanhã Não Existe

Quebrando a rotina da ficção, tirei um tempo para falar de mim, pensar em mim, ou qualquer coisa que o valha. Isso não vai só contra a rotina do blog, como também contra a rotina da minha cabeça. Eu já havia decidido que “Eu” era um tema um tanto quanto abstrato para ser interessante. Mas está certo. Todo acusado merece uma explicação, seja sobre a sua infância conturbada ou sobre os motivos que o levaram até a cena do crime. E se tratando do assassinato do Tio Shake, eu posso me delongar em inúmeras explicações. Aqui está a primeira.

Tenho andado muito pelas ruas da Internet sem procurar por nada, e às vezes me deparando com fantásticos brechós de idéias. Não poupo os comentários, é claro. Sempre fui boa em dar a minha opinião já que, infelizmente, tenho essa mania incoveniente de ter opinião pra tudo. Lutas internas à parte, volta e meia contesto algumas observações, e cá estou debatendo sozinha de novo sobre uma única frase.

“O amanhã existe.”

Cheguei a ler repetidas vezes tamanho o absurdo que isso soou aos meus ouvidos. O amanhã existe. O amanhã existe.

Pode parecer delírio meu essa reflexão. A alguns olhos a frase pode ter soado simples demais até para se escrever. Não para mim. E eu mostro o porque em uma pergunta. Um questionamento, na realidade. Alguém aqui já viveu o amanhã?

Inúmeras vezes precisei ver as coisas com os olhos para acreditar que eram reais. Ou tocar com a ponta dos dedos. Ou até mesmo sentir. Um sentimento é real, pois nós o sentimos, ainda que de dentro para fora. Mas eu nunca senti o amanhã, nunca vi o amanhã, nunca falei ao telefone ou discuti com o amanhã. Costumo falar sobre ele: “Amanhã terei aula de matemática”, “Amanhã retomarei os estudos”, “Amanhã não estragarei o dia”. Mas, da mesma forma que as coisas tendem a não se concretizar no futuro – Ana Patrícia tem estado ausente vezes demais para ser considerado normal -, nunca farei nada no amanhã. Porque amanhã, e não me culpem pela a esquisitice dessa frase, o amanhã já será o depois de amanhã.

Vivemos na busca pelo dia seguinte. E isso não significa que ele exista. Como uma grande fonte de luz no fim de um corredor escuro que, sem importar o quanto andemos, se mantém distante.

Até Logo.

James Barrie Way

6 comments Domingo, Outubro 5, 2008

Ähnlich 001

Ähnlich, do Português Parecido, Semelhante.

Gêmeo, do Latim geminu.

adjetivo e substantivo masculino,

que ou aquele que nasceu do mesmo parto que outrem;
composto de dois iguais, real ou supostamente coetâneos;

figurativo,

diz-se de coisas idênticas ou perfeitamente iguais;
diz-se dos frutos do mesmo ramo;
diz-se dos músculos que formam a barriga das pernas;

substantivo masculino,

(no pl. ) constelação do Zodíaco (grafado com inicial maiúscula).

Tom nunca entendeu porque Bill tentava permanentemente mudar sua forma para algo ainda mais andrôgeno e separar suas aparências; Entretanto, qualquer que fosse a reação, ele o seguia nessa busca incansável pelas diferenças. Ele dizia a, Bill dizia b. Até nas preferências pessoais e emocionais eles tentavam discordar:

Passeio no parque pela manhã, festa à noite

Doces de morango, pastilhas de menta.

Eu amo você, Eu amo você.

do Latim incestu.

Add comment Sábado, Agosto 30, 2008

Abrindo O Embrulho

“As palavras parecem pesadas aqui no wordpress. Elas demoram a aparecer na caixa, e empurram demoradamente uma às outras. Terrivelmente parecido com a realidade, elas se empurram do mesmo jeito, na minha cabeça.”

Murdering Shakespeare merece um espaço um pouco maior do que já possui, perdão.

E lá vamos nós. De novo.

Até Logo.

1 comment Quarta-feira, Junho 4, 2008


Quote

Those who bring sunshine into the lives of others cannot keep it from themselves. J.M. Barrie

O Tempo

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