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Foi-se

Ainda havia aquela coisa mastigada em seu lábio de palavra entalada. Era o que não tinha dito no momento certo, e o momento foi-se e a coisa ficou ali. Ele não engoliu como devia, mas ficou mastigando, remoendo, despedaçando como que para entender e imaginar os efeitos daquilo se não tivesse deixado o momento passar.

Havia um pouquinho de angústia e arrependimento, mas conforme ali ficava a coisa, passava a haver um pouco de alívio. Ai, se tivesse dito.. Se tivesse se deixado levar pelo momento.. Talvez, assim..

Depois amuou; Não dizer não adiantara muito.

E o alívio foi-se também.


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It was a really big family, to be quite honest with you. And every time another child was born they had to face the same old problem, as if it wasn’t easier for them just to quit reproduction. Same thing applied to the child they got to raise, helping the city to grow. It came to a point in which they were already twenty-seven sisters and thirty-one brothers living in a big farm.

Mom and Pa spent their daily dinner thinking about the same thing. Almost wondering.

What would happen when all the names on Earth ended?

When they did, though, they found a way out. Now they named and numbered kids. I happened to be number thirty-two, Abraham. I feel good about it. Makes me feel special. There’s no other thirty-two in the family.


De Austríacos

pairing indefinido || fandom indefinido || 500 palavras, g

gênero standalone

sinopse os personagens são amigos de anos, e um deles vai passar um ano em outro país (Áustria). A narração se dá para o momento do retorno.

Sentia saudades, de fato. Mas as saudades, por mais que doessem, por mais que sufocassem e fizessem parecer tudo mais inútil, não conseguiam acabar por inteiro com outros sentimentos – infinitamente menos nobres.

De alguma maneira, quando pensava sobre o assunto somente sorria cansado, um pouco inseguro por meio as lágrimas que desciam pelas maçãs do rosto tão tímidas, ainda com uma vergonha sem sentido de chorar.

Não se sentia mais fraco por sentir saudades; sentia-se mais fraco pelo ciúme, pela insegurança. A falta não o assustava, a falta não o reprimia. Não era pela falta que perdia o sono. Era só o medo de que a falta fosse eterna, uma vez que esta não fosse mais justificada pela distância.

Morria, morria de medo. Tanto que mastigava os lábios, gaguejava, andava pela rua e, antes que notasse, passava as mãos pelo cabelo enquanto, em sua cabeça, tocava algumas músicas que aprendera a gostar junto dele, e já não sabia se ele ainda gostava.

Passava horas prestando atenção no dia-a-dia do qual ele costumava a fazer parte, nas pequenas coisas, nos pequenos gostos. Duas horas sentado numa mesa de bar, conversando com uma menina agradável sobre o gosto da cevada e uma pergunta muda entalada na garganta: Será que muda muito de país em país?

Às vezes passava dias encarando o céu sempre azul daquela cidade. Se perguntava um milhão de vezes e meia se realmente era mais bonito do que todas as outras ou era coisa de carioca puxado, de gente que gostava demais de se auto-proclamar e tinha dificuldades tremendas de olhar o estranho e deixar-se bastar por ele.

A merda é que conhecia o outro muito bem. Sabia que não haveria essa história de que o que é meu é melhor; Não com aquele jeito quase mole, quase leve da personalidade dele. O seu novo-austríaco adorava o diferente, o do outro e, de certo modo, era por isso que tinha adorado tanto ele próprio.

Mas ele já deixara de ser novidade há tempos (que tal uma vida inteira, e aí ainda tentar dizer que surpreendemos um ao outro?) e agora, um ano depois, um ano de Áustria…

Quem garantiria que o gosto da cerveja não fosse muito melhor à língua dele se fosse essencialmente Austríaco?

Quem garantiria que a língua dele não estivesse mudada, e tudo com gosto de Rio de Janeiro fosse um pouco menos saboroso? (A pele).

Sentia saudades, de fato, mas tinha medo de matá-la com um abraço e só.

Porque sabia que um abraço era ansiado mutuamente, mas, além disso, ah, além disso não sabia nada. Nunca saíra daqui, nunca vira nada novo, nunca mudara de vida. Sua vida se mantivera com uma lacuna pelo ano que se passara, enquanto ele havia deixado sua vida, e fora embora. Ele era a lacuna em movimento e dele bastava isso.

E se, quando voltasse lacuna, tivesse mudado, e não mais se encaixasse no contexto?

E se, quando voltasse, gostasse mais de austríacos, e não mais dele?



O Beijo da Morte

pairing indefinido || fandom indefinido || 322 palavras, pg

sinopse o beijo da morte é o símbolo da condenação na máfia. quando alguém da mesma família (organização mafiosa) recebe um beijo na boca do seu chefe (padrinho) está decretado de morte e não dura muitos dias.

Traição. Só isso, algumas letras e um pouco de ódio na hora de pronunciá-las. O motivo todo de um pouco de carinho, que não significava realmente carinho – mas era um beijo de qualquer jeito (e ainda existem as pessoas que dizem que beijos são, por si só, muita coisa).

Naquele caso o beijo era sangue. E se sangue fosse tanta coisa assim, estava explicado porque doía tanto, porque o peito fechado e são dele sangrava. Não precisava de furos ou tiros ou qualquer outra coisa – o decreto do tocar dos lábios era tudo. E se haviam testemunhas ou não, pouco importava.

Se o outro era um homem sem honra (sem palavra), ele mesmo não o era, e cumpriria o que estava documentado com os lábios grudados – ansiando movimento, ansiando mais – no meio do escritório ornamentado com móveis de madeira cara. E que irônico que agora fosse seu próprio sangue, se depois seria o dele escorrendo de um buraco bem feito na testa.

Não é que não estivesse tentando segurar o músculo dentro de sua boca, mas sua força era tão pouca se comparada à vontade que não se passou muito tempo até o decreto virar um suspiro (preso no meio das bocas, com línguas desesperadas se massacrando no que deveria ser uma massagem).

E isso fazia doer ainda mais. Há quanto tempo ele esperava por isso não saberia dizer, mas é, no mínimo, uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo em que realiza, destrói. Acaba. Dá fim.

Dá fim a algo que parecia eterno – uma vontade infantil de ter um par de alguma coisa que não se podia conquistar. No caso, um par de lábios, que agora tocava os dele e recebia a maldição.

O beijo da morte. Só isso, algumas palavras e um pouco de mágoa na hora de dá-lo. Talvez a verdadeira razão da nova dor que crescia dentro do peito do mandante – completamente diferente da dor do desejo.

Ele nunca pensara que seus lábios teriam o peso de um dedo no gatilho.

Que seus lábios poderiam ser a lâmina na jugular, e fim.


Poesia Morta

Achou.

Achou como se achasse o corpo de uma poesia morta há muito tempo, ainda com a face torcida em dor, e quando a tocou sua mão estremeceu de medo. Seu peito estremeceu.

Abriu. Como se fosse uma flor a desabroxar no meio do inferno, porque ele estava frio e o corpo de repente – e contra as regras! – queimava. Queimava na sua morte.

E leu. E era como se estivesse lendo lábios.

Era uma carta. Uma carta com versos de poesia de Vinícius. Poesia velha e conhecida, mas agora arrancada e jazendo em um lugar completamente diferente do de costume. Mortinha da silva.

“Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.” (V.M.)

E era tudo que dizia. Preso a um disco de vinial de Caetano.

Ele sempre odiara Caetano, sempre odiara esse poema do mesmo modo. Até porque, convenhamos, que amor mais feio. Amor doído, amor louco.

Não gostava desse tipo de amor – e ainda mais por tê-lo herdado!

Não precisava de assinaturas para saber quem o escrevera, e a quem dera. Era de seu pai. Pra sua mãe. Há muito tempo, visto que hoje em dia amor é a última coisa que nutrem um pelo outro.

Sempre havia sido assim, então? Uma relação baseada extremamente em facas e dores? Quanto mais eu te machuco, mais eu te amo. Me machuque. Me machuque..

Não! Se negava a acreditar! Não é possível que viesse de uma relação assim, de ódio por cima de ódio, chamando de amor só para ficar bonito. E ódio sem sentido!

Mas então olhou pra si, esfaqueando a pessoa que mais amava na vida para proteger-se. Matando poesias inteiras para fazer os outros olhos encherem d’água e implorarem. Machucando.. por amor. E então percebeu que, além de não fazer sentido nenhum, era o mais certo. Era o sua melhor declaração.

Amava. Logo, machucava.

E para quê?

Para quê amava, em primeiro lugar?


Daniel Na Cova Dos Leões

Por James B. W.

Eu dancei com a música. Eu pude segurar em seus ombros e tocar sua pele macia, e eu dancei com a música. Lentamente, rodando em meu próprio eixo, eu dancei com a música. E eu toquei nos fios de cabelo da música com a ponta dos dedos, enquanto me entorpecia com o cheiro de centeio que desprendia dali. Era similar ao cheiro do campo de centeio para o qual nós costumávamos correr e nos esconder para dançar a nossa música íntima. Eu dancei com a música. E eu senti a ponta de seus seios quentes de liberdade tocarem os meus timidamente, me lembrando um abraço aprisionado de meses atrás entre nós duas. Eu dancei com a música. E eu segurei a música em meus braços. E eu encostei minha cabeça pesada de idéias e lembranças em seu tórax coberto de um cetim leve e eu imaginei. Eu imaginei que eu dançava sem a música, sem som, sem voz, sem nada. Eu imaginei que era um tórax firme, que era um cheiro de centeio forte, que era tudo real. Eu dancei com a música, e eu pude dirigi-la para casa.


Ähnlich 001

Ähnlich, do Português Parecido, Semelhante.

Gêmeo, do Latim geminu.

adjetivo e substantivo masculino,

que ou aquele que nasceu do mesmo parto que outrem;
composto de dois iguais, real ou supostamente coetâneos;

figurativo,

diz-se de coisas idênticas ou perfeitamente iguais;
diz-se dos frutos do mesmo ramo;
diz-se dos músculos que formam a barriga das pernas;

substantivo masculino,

(no pl. ) constelação do Zodíaco (grafado com inicial maiúscula).

Tom nunca entendeu porque Bill tentava permanentemente mudar sua forma para algo ainda mais andrôgeno e separar suas aparências; Entretanto, qualquer que fosse a reação, ele o seguia nessa busca incansável pelas diferenças. Ele dizia a, Bill dizia b. Até nas preferências pessoais e emocionais eles tentavam discordar:

Passeio no parque pela manhã, festa à noite

Doces de morango, pastilhas de menta.

Eu amo você, Eu amo você.

do Latim incestu.


I Am Watching You

Eram dois. Não tão grandes, mas ganhavam espaço enquanto eram observados. E ao mesmo tempo em que eram olhados com tanto receio e, digamos, desejo, eles observavam também. Eram redondos e bem marrons, mas não escuros. Não havia nenhuma ponta de mistério ou prazer, ou qualquer coisa que os tornassem luxuriosos. Pareciam de uma criança e o mais intrigante é que ali já não havia crianças.

O mais interessante.

Eles nem estavam presentes, de fato. Mas nunca estavam longe. Nunca piscavam. Sempre ali, em dois, em par. Sempre do jeito que o observado desejava estar..

E ‘sempre’ é tanto tempo.

A menina se abraçou por um segundo. Estivera evitando por tanto tempo fechar os olhos que a imagem já a assombrava de olhos abertos. Não havia como fugir, não havia para onde correr. E mesmo que desejasse, correr não ia resolver absolutamente nada. Afinal, os problemas estavam ali, tomando conta de tudo, assim como os dois olhos que a encaravam.

O mais assustador de tudo – e ela quase se deixou temer por isso – era o fato de ela ser a observadora. Ela olhava e procurava durante todo o maldito dia, e então, quando os olhos retribuíam, era apenas mais um detalhe formado em sua pequena assombração. Ela atraía o monstro, ela atraía o medo, ela atraía a dor. Ele nunca a procurou e nem a procuraria por ele mesmo; Só as demonstrações de reconhecimento bastavam. Era só isso que a fazia enlouquecer.

Um olhar.

Um cumprimento.

Uma despedida.

Um ‘afaste-se’.

E então, como vão os batimentos agora?

Até Logo.


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