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Poesia Morta

Achou.

Achou como se achasse o corpo de uma poesia morta há muito tempo, ainda com a face torcida em dor, e quando a tocou sua mão estremeceu de medo. Seu peito estremeceu.

Abriu. Como se fosse uma flor a desabroxar no meio do inferno, porque ele estava frio e o corpo de repente – e contra as regras! – queimava. Queimava na sua morte.

E leu. E era como se estivesse lendo lábios.

Era uma carta. Uma carta com versos de poesia de Vinícius. Poesia velha e conhecida, mas agora arrancada e jazendo em um lugar completamente diferente do de costume. Mortinha da silva.

“Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.” (V.M.)

E era tudo que dizia. Preso a um disco de vinial de Caetano.

Ele sempre odiara Caetano, sempre odiara esse poema do mesmo modo. Até porque, convenhamos, que amor mais feio. Amor doído, amor louco.

Não gostava desse tipo de amor – e ainda mais por tê-lo herdado!

Não precisava de assinaturas para saber quem o escrevera, e a quem dera. Era de seu pai. Pra sua mãe. Há muito tempo, visto que hoje em dia amor é a última coisa que nutrem um pelo outro.

Sempre havia sido assim, então? Uma relação baseada extremamente em facas e dores? Quanto mais eu te machuco, mais eu te amo. Me machuque. Me machuque..

Não! Se negava a acreditar! Não é possível que viesse de uma relação assim, de ódio por cima de ódio, chamando de amor só para ficar bonito. E ódio sem sentido!

Mas então olhou pra si, esfaqueando a pessoa que mais amava na vida para proteger-se. Matando poesias inteiras para fazer os outros olhos encherem d’água e implorarem. Machucando.. por amor. E então percebeu que, além de não fazer sentido nenhum, era o mais certo. Era o sua melhor declaração.

Amava. Logo, machucava.

E para quê?

Para quê amava, em primeiro lugar?

1 comment Quinta-feira, Maio 14, 2009

Daniel Na Cova Dos Leões

Por James B. W.

Eu dancei com a música. Eu pude segurar em seus ombros e tocar sua pele macia, e eu dancei com a música. Lentamente, rodando em meu próprio eixo, eu dancei com a música. E eu toquei nos fios de cabelo da música com a ponta dos dedos, enquanto me entorpecia com o cheiro de centeio que desprendia dali. Era similar ao cheiro do campo de centeio para o qual nós costumávamos correr e nos esconder para dançar a nossa música íntima. Eu dancei com a música. E eu senti a ponta de seus seios quentes de liberdade tocarem os meus timidamente, me lembrando um abraço aprisionado de meses atrás entre nós duas. Eu dancei com a música. E eu segurei a música em meus braços. E eu encostei minha cabeça pesada de idéias e lembranças em seu tórax coberto de um cetim leve e eu imaginei. Eu imaginei que eu dançava sem a música, sem som, sem voz, sem nada. Eu imaginei que era um tórax firme, que era um cheiro de centeio forte, que era tudo real. Eu dancei com a música, e eu pude dirigi-la para casa.

Add comment Quarta-feira, Outubro 1, 2008

Ähnlich 001

Ähnlich, do Português Parecido, Semelhante.

Gêmeo, do Latim geminu.

adjetivo e substantivo masculino,

que ou aquele que nasceu do mesmo parto que outrem;
composto de dois iguais, real ou supostamente coetâneos;

figurativo,

diz-se de coisas idênticas ou perfeitamente iguais;
diz-se dos frutos do mesmo ramo;
diz-se dos músculos que formam a barriga das pernas;

substantivo masculino,

(no pl. ) constelação do Zodíaco (grafado com inicial maiúscula).

Tom nunca entendeu porque Bill tentava permanentemente mudar sua forma para algo ainda mais andrôgeno e separar suas aparências; Entretanto, qualquer que fosse a reação, ele o seguia nessa busca incansável pelas diferenças. Ele dizia a, Bill dizia b. Até nas preferências pessoais e emocionais eles tentavam discordar:

Passeio no parque pela manhã, festa à noite

Doces de morango, pastilhas de menta.

Eu amo você, Eu amo você.

do Latim incestu.

Add comment Sábado, Agosto 30, 2008

I Am Watching You

Eram dois. Não tão grandes, mas ganhavam espaço enquanto eram observados. E ao mesmo tempo em que eram olhados com tanto receio e, digamos, desejo, eles observavam também. Eram redondos e bem marrons, mas não escuros. Não havia nenhuma ponta de mistério ou prazer, ou qualquer coisa que os tornassem luxuriosos. Pareciam de uma criança e o mais intrigante é que ali já não havia crianças.

O mais interessante.

Eles nem estavam presentes, de fato. Mas nunca estavam longe. Nunca piscavam. Sempre ali, em dois, em par. Sempre do jeito que o observado desejava estar..

E ’sempre’ é tanto tempo.

A menina se abraçou por um segundo. Estivera evitando por tanto tempo fechar os olhos que a imagem já a assombrava de olhos abertos. Não havia como fugir, não havia para onde correr. E mesmo que desejasse, correr não ia resolver absolutamente nada. Afinal, os problemas estavam ali, tomando conta de tudo, assim como os dois olhos que a encaravam.

O mais assustador de tudo – e ela quase se deixou temer por isso – era o fato de ela ser a observadora. Ela olhava e procurava durante todo o maldito dia, e então, quando os olhos retribuíam, era apenas mais um detalhe formado em sua pequena assombração. Ela atraía o monstro, ela atraía o medo, ela atraía a dor. Ele nunca a procurou e nem a procuraria por ele mesmo; Só as demonstrações de reconhecimento bastavam. Era só isso que a fazia enlouquecer.

Um olhar.

Um cumprimento.

Uma despedida.

Um ‘afaste-se’.

E então, como vão os batimentos agora?

Até Logo.

3 comments Sexta-Feira, Junho 20, 2008


Quote

Those who bring sunshine into the lives of others cannot keep it from themselves. J.M. Barrie

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