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O Monólogo de Anita 002 – Cena
Encarou os olhos da menina. Estavam envoltos de tristeza e preocupação, e com esse simples vislumbre, Megan encheu-se de melancolia. Aqueles olhos inchados de noites tristes e preocupação não eram os mesmos olhos de sua Anita, pensava. Sua Anita tinha olhos risonhos que eriçavam os pelos de sua nuca com um simples olhar.
Megan sentiu uma dor aguda no peito. Estava inclinada sobre os joelhos dobrados, arrancando, distraidamente, pedacinhos do mato verde à sua frente. A menina não estava muito longe de si, encarando algo perto do lago com um interesse inversamente proporcional ao que a mais clara dedicava a ela. Não sabia o certo porque, mas, reprimindo a vontade que tinha de agarrar os dedos finos de Anita e puxá-la para seu peito, buscando acabar com a dor que sentia ali, ou a dor evidenciada nos olhos de Anita, Megan começou a mover os lábios em silêncio, na oração mais bonita que conhecia.
Ainda que suas mãos trabalhassem involuntariamente, e sua boca se movesse, os olhos de Megan estavam atados ao rosto de Anita como fortes imãs. Olhava-a como se não soubesse exatamente como eram as curvas de seu rosto, seus lábios rosados e sua pele cor de mel. Como se jamais a tivesse visto, e como sempre a olhava quando estava por perto. A cada mínima mudança na luz, era uma nova Anita em seus olhos. Era a tristeza mais bela que Megan jamais vira.
Sem pedir licença e tão repentinamente que até mesmo assustou a mais velha, uma lágrima desceu pelo rosto moreno, morrendo em seus lábios, Anita secou-a com as costas da mão de maneira rápida demais para ser delicada, e fingiu que ela jamais existira. Se tivesse de chorar mais, que fosse sozinha, e não ao lado de Megan que tinha muito mais motivos para isso. Sofrer ao lado dela era quase uma ultraje; Não ousaria. Não ousaria fazer com que Megan tivesse mais um motivo para ficar triste. A Mansão Rutherford já era melancólica o bastante.
Anita deitou-se na grama. Os cachos escuros espalhando-se como um Sol, enquanto seus olhos se fechavam para que O Verdadeiro pudesse beijar sua pele completamente. Usava um vestido claro e leve, curto ainda como quando era criança, apesar de há pouco já ter se tornado uma moça. Mostrava os joelhos, mas ao lado de sua melhor amiga sentada no jardim de sua casa, não achariam inapropriado.
Megan também usava uma roupa descomprometida, embora seu vestido fosse mais rosado e descesse um pouco mais, visto que teria de andar o caminho para casa sozinha, e não ficava bem para uma moça de sua idade que usasse roupas de criança na rua. Já a olhavam de modo esquisito por ela ainda não carregar um anel em sua mão direita, enquanto muitas mulheres já usassem jóias caras de compromisso. Não era por falta de pretendentes. Anita costumava dizer que Megan quebrava corações por onde passava, ainda que ela discordasse veementemente, mas Megan sabia que não era feia. Ela sentia o olhar dos homens sobre ela por onde passava, mas ao invés de isso elevar o seu espírito, a amedrontava. Não sabia explicar o motivo, apenas não gostava. Não gostara de nenhum dos seus pretendentes e duvidava profundamente que fosse gostar de algum.
As duas não eram muito diferentes. Anita também jamais pensara em casamento, embora não cogitasse a idéia do convento como a menina Rutherford. Todos os homens a ela oferecidos ou eram velhos, ou bobos, e ela não conseguia imaginar-se passando o resto de sua vida cuidando deles. Sua mãe, porém, nunca fora tão rigorosa quanto Mrs. Rutherford e ela sentia-se grata por isso.
Anita tinha traços mais grossos em sua face, que nem por isso deixavam de ser extremamente delicados, e um tom de pele quase imperceptivelmente mais escuro do que o de Megan, devido aos seus genes mexicanos, embora o Sol da Europa quase extinguisse esses vestígios. Enquanto Megan era uma menina rosada demais, com seus ralos fios loiros escorrendo pelas costas, Anita se parecia ainda um pouco com sua mãe latina, com cachos largos e escuros descendo da cabeça e uma aparência firme. Podia-se dizer que fora ela quem nascera dois anos antes e ninguém discordaria. Megan parecia-se demais com uma bonequinha para ter dezesseis anos completos.
O céu estava particularmente azul naquela manhã, e tomada pelo desejo de se aproximar um pouco mais da outra menina, Megan deitou-se ao lado dela, mas sem fechar os olhos. Ao longe alguns pontinhos moviam-se como andorinhas procurando um lugar mais quente para ficar, assim como Megan queria chegar ainda mais perto de Anita, para se aquecer de um frio inexistente. Sem saber como, viu que a mão da morena segurava a sua, e olhou pelo canto para o rosto dela. Ainda estava impassível, como se dormisse ou finalmente descansasse. Seu rosto ainda estava triste, mas nesses breves minutos havia perdido o ar carregado e havia se tornado como uma flor de inverno. Escura e úmida, mais ainda bonita por resistir ao frio.
- Devia falar comigo. – Disse por fim, lutando contra o receio que lhe arrebatava o peito. – Se me chamou aqui devia aproveitar a minha presença, e não ficar deitada na grama em silêncio. Faz com que eu me sinta inútil.
- Não é útil. E sabe disso. – E a voz saiu rouca. Anita pigarreou. – Está muito melhor o meu silêncio contigo, pois estou ouvindo você respirar.
Megan não pode deixar de sorrir para o nada. Gostava de se sentir importante para Anita, ainda que sempre acabasse pensando o contrário.
- Que grande bobagem. – Exclamou e riu. – Se quiser conversar..
- Ele se foi, querida. E não há nada que eu possa querer dizer sobre isso. Ele se foi e agora é Gael quem vai cuidar de mim e de minha mãe, apesar dele ser um menino bobo e grande. – Anita riu, mas sua voz era fria e rígida, como a neve do inverno.
Megan não pode concordar.
- Você sempre cuidou de si mesma.
Querendo ou não, a morena rolou os olhos. Virou-se para Megan, apoiando a cabeça no cotovelo, e este na grama.
- Isso deve explicar porque me encontro no estado que estou.
Via-a muito de perto, observando as linhas entrelaçadas do vestido tecido, e subir e descer cada vez mais rápido do peito de Megan, as montanhas de seu rosto. Os cílios eram curvos, e o olho que Anita podia ver estava no mais profundo azul, calmo e sereno, contra a luz do Sol. Megan não se deu ao trabalho de responder, controlando a respiração ao sentir o olhar da outra sobre si. Era como um grande castelo esmagando o seu corpo, e ao mesmo tempo, com a delicadeza de uma pena. Anita observou uma formiguinha de pique-nique arriscar-se pelo vestido rosa de Megan, atrapalhando-se ao subir e descer as linhas e parando logo abaixo dos seios, na parte reta. Aproximou-se dali e assoprou para afastá-la, mas o seu ato fez com que Megan movesse as pernas, as fechando com força e suspirando. Anita corou, mas não teve coragem de se afastar.
Debruçada sobre o corpo de Megan, sentindo o calor que emanava dali, Anita estava entorpecida. Talvez estivesse tonta pois estava há muito sem comer ou dormir, mas sabia que não era simplesmente isso. Megan a fazia sentir-se leve demais, como um pássaro ao vento, e essa sensação de liberdade sempre a estonteava. Anita sentiu um arrepio subir pelo seu pé até seu baixo ventre ao respirar fundo. O perfume da loira era doce, ams não enjoativo, e fazia-a lembrar das rosas de Megan, no jardim dos Rutherford. Nunca achara as rosas flores especialmente cheirosas, apesar de todas as flores o serem. Preferia o perfume das tulipas, no geral, mas as rosas de Megan não eram agradáveis só aos olhos. Costumava dizer que as rosas dela eram as melhores, porque a elas Megan dedicava todo o seu carinho e amor. Talvez as rosas também a amassem, enfim.
- Você tem certeza de que está bem? – Megan perguntou, e Anita despertou de seus pensamentos, voltando a deitar-se de barriga para cima, sobre a grama.
- Perfeitamente. – Sua voz soou um pouco mais insegura do que deveria.
Megan segurou a sua mão o mais rápido que pode, entrelaçando os dedos e fazendo um carinho leve ali, como que se escondesse aquilo de todo o mundo. Sua respiração estava especialmente forte para carinhos tão delicados, e Anita ir e vir entre sentimentos que ela não conhecia e não saberia dizer, mas já se chamavam paixão e amor. Desejava debruçar-se novamente sobre Megan, mas desta vez deitar a cabeça nela e abraçar sua cintura. Puxá-la para mais perto, e pressioná-la contra o seu corpo. E quanto mais pensava nesses desejos, mais os sentia, e já pressionava os lábios, mas não receio ou vergonha, mas como se para reprimir o crescente calor que a atingia, seguido de calafrios.
De repente, Megan encaixara-se em seu corpo, abraçando-a como ela a pouco desejara fazer. O perfume parecia vir de todos os lugares e a pele de Megan era tão macia quanto parecia, assemelhando-se às pétalas. Os dedos finos da mais velha seguraram o seu antebraço, e o lado de seu rosto tocava o seu colo, onde a alça do vestido já caía para o lado discretamente. Abraçaram-se como se fossem os ursinhos aos quais dormiam abraçadas quando eram crianças. Na verdade, ainda sentiam-se assim, embora o mundo as empurrasse para uma vida adulta, e no abraço puderam ter a certeza disso. Quando paravam de fingir ser grandes, e agiam como se sentiam, estavam completas.
- Eu fiquei muito preocupada com você. – Megan sussurrou, e Anita sentiu molhar sua pele na altura em que os olhos da outra se encontravam.
- Ei.. Não chora.. – Pediu e começou a embalar a mais velha, murmurando uma canção dos Montes do Gales, que achava especialmente bonita.
Megan já ouvira aquela canção antes. Anita costumava murmurar quase sempre até que um dia a loira ouvira o pai dela cantando-a em um dos poucos jantares em que estava em casa. Achou-se uma boba. Fora o pai de Anita que morrera, e há apenas dois dias, mas era sempre Megan que acabava chorando. Ainda que quisesse se censurar, não teve capacidade de fazê-lo por muito tempo. Chorava por fora, mas seu coração acelerava por dentro, por cada centímetro de distância extinto entre Anita e ela. E Megan sentiu-se feliz pela primeira vez estar fazendo tudo ao contrário, e não pode segurar um sorriso por entre as lágrimas.
1 comment Quinta-feira, Novembro 13, 2008
O Monólogo de Anita 001
Querida Megan,
O tempo está perigosamente quente durante os últimos dias. Estive na mansão dos Jones e, eu e Charlotte tivemos de trocar os vestidos por bermudas. Mesmo assim, passamos o dia sobre a grama do jardim. Ela me disse sobre uma viagem que seus pais pretendiam fazer à Alemanha e eu tentei convencê-la a ir com eles e visitar você, mas Lousie achou uma má idéia. Sua boca pronunciou “Por causa do senhor Rutherford”, mas eu podia jurar que sentia que seria má idéia por nossa causa. Lousie ainda está tendo dificuldades nesse assunto, mas não é tão ruim. Ao menos, a senhora Anne-Joulie se sentiu motivada a conversar com as duas, e Charlotte me disse que ela foi extremamente delicada e amorosa ao falar de nós. Fico feliz por ambas poderem contar com uma mamãe tão inteligente.
Já por aqui, as coisas continuam dolorosas. Não tanto para mim, mas mamãe está trancada no quarto desde o estrondo da véspera de sua partida, até hoje. Tem comido pouco e, apesar de Angela estar trabalhando para agradá-la, recusa-se a sair. Entretanto, você a de concordar comigo quando eu digo que é melhor para mim desse modo, não?
Cherie disse-me que as pessoas estão a olhando estranhamente no externato. Ela concordou que eu deveria esperar mais um pouco para voltar às aulas, e como ninguém olha pra mim tempo suficiente para me dar ordens em casa, eu farei isso. Por isso, estou copiando suas lições.
Gael cortou a boca em algum lugar, mas recusou-se a me contar. Eu o ajudei com os curativos, já que ele chegara mais uma vez muito tarde e Angela já havia se deitado. Perguntei a Cherie, mas ela pareceu estar mentindo ao dizer não saber de nada. Ou talvez eu esteja um pouco paranóica.
Ontem passei pelo portão de sua mansão. Lousie disse ter visto sua mamãe, mas eu me distraí olhando as roseiras. Eu não sei se isso é possível, mas uma rosinha branca desabrochou entre as suas vermelhas. Acho que o seu jardim também sente sua falta.
Toda a cidade perdeu um pouco com a tua partida, minha querida. Lousie tem estado ríspida, mas ela só não quer demonstrar quanta falta sente. As ruas estão mais acinzentadas e nem o Sol forte tem feito os gramados verdes resplandecerem. Os dias parecem ser noites sem a beleza das estrelas e, mesmo que eu tenha forçado, todos os sabores se parecem com pedra.
Gael só falou comigo mais uma vez desde o início da semana, além do dia em que eu o ajudei com o curativo. Ele me pareceu hesitante, mas eu tive que me manter forte para não chorar. Ele disse “Se você diz que a ama, eu acredito em você” e se ofereceu para postar cartas para você. Propositalmente ou não, eu passei a suportar melhor a nossa distância; Se meu irmão aceitou e compreendeu, isso nos aproxima de que, eventualmente, nossos pais superem, ao menos.
Acabei de parar alguns minutos para pensar na palavra certa para uma despedida e olhei pela janela. O céu está claro de estrelas opacas e duas delas se jogaram atrás do meu jardim. Eu fiz dois desejos:
I. Pedi que você voltasse para perto de mim;
II. Que, se o meu pedido anterior não pudesse ser realizado, você me esquecesse e fosse feliz na Alemanha.
Da sempre, sempre tua,
Anita Márquez.
Ps.: A rosa branca da tua roseira é um presságio. Do meio do nosso amor ainda há de vir Paz algum dia.
Add comment Quarta-feira, Outubro 1, 2008
Crap
N/A: Um tipo de fic-diálogo, sem narração. Eu acho que ficou MUITO confuso, mas eu queria postar de qualquer forma. Pra facilitar eu coloquei as falas de um em itálico, porque ficou realmente muito abstrato. Lá vai x)
- Lixo.
- O que diabos há com você?! Por que você rasgou?! Era minha história e eu nem ao menos havia a datilografado!
- É lixo; Não quero que ninguém mais seja obrigado a ler essa merda.
- Você só pode estar brincando..
- É uma história bonita, sem dúvidas. E, contudo, foi escrita como se não valesse nada.
- Eu trabalhei nisso!
- Eu não sou seu professor, não precisa fingir para mim.
- Vá à merda, então. Está dizendo que suas histórias são bem melhores?
- Não as histórias. Mas, sem dúvidas, eu escrevo muito melhor do que você.
- Oras!
- Eu estou falando sério. Olhe as suas palavras.. Deus! Puro lixo.
- Você pode parar de me criticar tão sem fundamentos e educação?
- Eu cuido da educação. Há fundamentos, entretanto. Você é muito simplório na escrita.
- E do que me adianta escrever uma história que ninguém vai entender, uh?
- Ao menos você escreve uma história e não simplesmente a conta.
- Está me dizendo que há diferença nisso? Você está definitivamente drogado.
- Claro que estou.
- Então..
- Então nada. Apenas reflita sobre isso. Você quer que as pessoas entendam ou que elas gostem?
- E é possível gostar de alguma coisa sem ao menos entendê-la?
- Você gosta de mim.
- Eu entendo você.
- Então, você gosta de mim?
- Achei que isso havia ficado implícito.
- Ah..
- …
- Certo. Mas você não me entende.
- Claro que entendo.
- Não, nem um pouco. Ao menos sabe por que eu estou dizendo que você é péssimo com a escrita?
- Para diminuir o meu ego e confiança em mim mesmo?
- Não.
- Claro que é. Você queria que eu me sentisse vulnerável, afinal, você gosta de mim, só não havia percebido que eu gosto de você.
- Se eu gostasse de você, iría querer vê-lo com uma auto-estima deplorada?
- Isso seria bem você.
- Você nem ao menos me conhece para me entender, o que nos leva ao ponto inicial. Você quer que eles gostem ou que eles entendam?
- Está mesmo um lixo?
- O que você quer que eu diga?
- Foi para você.
- …
- …
- Lixo.
- Então, você entendeu.
- É. Entendi.
- Então, você sabia que era retribuído?
- Sim.
- Então, qual é o sentido dessa conversa?
- Isso foi no mínimo lindo.
- O que?
- Essa conversa.
- Ah.
- Eu vou escrever.
- Como se alguém fosse nos entender.
- Você não esteve me ouvindo, esteve? Eles vão gostar.
1 comment Segunda-feira, Junho 23, 2008