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Dreaming About Teeth 003
E então, John ficou doente. Muito doente. E mais do que físico, a doença se originou psicologicamente. E foi como se algo o matasse de dentro para fora, devastando a vida de seus olhos e atos. Os sorrisos, antes alheios, agora eram tão escassos quanto a felicidade de Sai. Ela não sabia muito o que fazer, ficou perdida assistindo John se perder dentro dele mesmo. Quis oferecer uma mão, mas o mundo parecia conspirar. Um dia, ele deveria visitar um outro lugar. No outro, ele deveria dormir durante mais horas do que se imaginava ser possível. E quando ela se aproximou, por fim, as palavras lhe fugiram a boca, porque toda vez que via aquela cena era algo automático, e vivendo aquilo todas as coisas que pudesse dizer pareciam desnecessárias.
Ela não perguntaria a ele se ele estava se sentindo bem, isso estava claro em seus olhos redondos e escuros. E toda vez que ela encarava a imagem solitária de John por mais de um milésimo de segundo, seus olhos enchiam-se de água e ela se sentia ainda mais incapaz.
Depois, vieram os comentários. Nikki e Lousie foram as seguintes a perceber. “Você viu como ele está triste? Estou até com dó.” E depois Edwin e Julian que, ao invés de segurá-lo e tentar mantê-lo por perto, o afastaram achando que estariam ajudando. Sai amaldiçoou cada um deles, por serem mais capazes do que ela e mesmo assim, estarem envergonhados ou temerosos de fazerem alguma coisa.
E dentro do seu ódio, Sai se perdeu, tentando consertar coisas sem conserto, tentando segurar mãos não-presentes. Dentro da sua tristeza, o remorso surgiu. E mais do que isso, dentro dela tudo virou escuridão.
E se alguma coisa acontecesse a ele.. Se ele fizesse alguma coisa a si próprio..
Das Ende.
1 comment Sábado, Agosto 23, 2008
Dreaming About Teeth 002
Por James B. W.
Os insetos ressoavam em seus zumbidos e piados típicos do horário. O céu estava mais escuro do que seria capaz na cidade, mas Sai estava satisfeita com o ar do campo que se espalhava pelo seu sítio. Julian, Edwin e John estavam certamente trabalhando na louça do jantar que as meninas haviam preparado, e mesmo que tenha passado pelas suas mentes reclamar, elas haviam cortado essa possibilidade com olhares fulminantes.
Sai aproveitara a atenção momentânea dedicada por suas amigas a algum objeto velho achado em sua própria casa para se esconder na varanda. Dessa forma, não teria de ouvir o som dos copos e pratos se estilhaçando, apesar de ter certeza plena que era exatamente o que estava acontecendo.
Talvez, ela pensou, estivesse mesmo se tornando uma romântica irrecuperável, tomando a bebida fermentada quando todos se enlouqueciam com algumas garrafas destiladas e esperando que ele irrompesse ali fora a qualquer momento. Com as mãos sujas de sabão e um sorriso estúpido, perguntando por que ela estava tão longe e tão sozinha. Seria um plano perfeito para não provocar nada além de uma sensação agradável, subindo pelo seu tórax até corar suas bochechas. Era engraçado como tudo parecia ter sido monumentalmente planejado visto que eram quase três casais. E o maldito quase pela falta de relação entre Sai e John. Ela chegou a pensar que sua mente estivera pregando peças nela, a confundindo antes mesmo que conseguisse se decidir sobre os seus sentimentos e a empurrando sem escapatória para o caminho do platonismo – como se ela mesma não estivesse entregue a ele. Mas Sai estava feliz quando John se aproximava e dizia coisas banais; Feliz o suficiente para não se incomodar com a espera.
“Ei..” E as duas letras flutuaram pelo ar puro, encostando-se no ouvido de Sai como uma melodia.
Ela sorriu e se virou, sustentando o sorriso como um cumprimento, mas sabendo que ele tinha outra razão.
John caminhou com as mãos pingando água e sabão pelo chão vermelho-tijolo que manchava os pés. Sentou-se na rede ao lado dela e com a mudança na estabilidade do pano, Sai pendeu para o seu lado, virando a taça alguns milímetros e derrubando um pouco do líquido em sua calça. Estava um pouco mais perfeito que o plano de sua mente.
“Merda, John!” praguejou.
Ele revirou os olhos e dirigiu as mãos ensaboadas para o joelho da menina, tentando inutilmente livrá-la daquela cor de sangue. Sai achou um tanto absurdo o modo como ele arruinara as coisas e estava arruinando sua calça, mas não haveria um mundo em que ela pudesse pedi-lo para se afastar ou parar de tocá-la. Na verdade, ela chegou a quase dizer isso, antes que ele se irritasse com a sua própria performance e começasse a ser mais vigoroso nos toques. Então, distância parecia tão dolorosa quanto na maior parte do tempo de novo.
“Desculpe.” Ele pediu, começando a rir em um quase silêncio. “Você está bem?”
“Você só molhou a minha calça. Foi estúpido, mas não é como se eu fosse começar a me sentir mal por isso.” Sai riu junto, encarando os olhos amendoados pelo segundo em que o rosto se virou para ela, e suspirando pelo próximo.
“É só que.. Você está quieta. E isso está uma desgraça.” Ele se afastou novamente, deixando a tarefa de lado ao perceber que Sai não ligava para o estado da calça, de qualquer forma.
“Eu estou bem. E a calça vai ficar.” Ela sorriu e bebeu mais um gole do vinho, antes de estalar os lábios e começar a falar olhando para o céu.
“Quando eu era menor, vir para o sítio significava estar sem horários. Para comer, dormir, ou todo o resto. E eu gostava disso, porque de fato quem controlava meus horários era a empregada, e soava muito como regras para mim. Desde já eu era acostumada aos padrões da minha mãe. Viver por aí, vivendo..” Sai olhou para John, para ver se ele se perdera nas palavras ou ainda estava a acompanhando e ele fez um sinal com a cabeça para que continuasse.
“Então, quando mamãe e papai dormiam ou ficavam conversando na sala, eu deixava a luz de dentro acesa e apagava a da varanda, como agora, porque eu tinha medo do escuro. Eu sentava aqui e ficava olhando para o céu, encolhendo a minha visão para que só pudesse enxergar a escuridão a minha frente e os pontinhos luminosos. E eu não sentia medo, porque a luz estava às minhas costas, e eu podia me aventurar em enxergar somente o céu. E era como se não só não houvesse horários para as minhas tarefas, mas como também não houvessem tarefas..“ Sai suspirou, perdida no céu por mais um instante. “Soa estúpido, porque o momento especial de todas as pessoas é quando não há mais nada além deles e o mundo. Mas eu acho que é aí que está o ponto.”
O silêncio contornou o lugar e Sai começou a se perguntar porque havia dito tudo aquilo. Parecia bem estúpido falar tanto de si sem nenhum motivo particular, e foi quando Sai começou a se sentir estúpida. Não que ela não se sentisse assim toda vez que John estivesse por perto, mas ela achava justo citar. E frisar.
“Você tem medo de escuro?” Ele perguntou, fazendo-a arquear a sobrancelha.
“Um pouco.” Confessou.
“Mas quando ficam sozinhas de verdade, as pessoas sofrem. É por isso que você tem medo, você não consegue enxergar ninguém se as luzes estão apagadas.” John suspirou. “E quando você sabe que tem alguém lá, então, você segue. Porque ser sozinho é o melhor sonho e o pior pesadelo.”
Sai sorriu enquanto John usava as pernas para balançar a rede. Ele não viu, porque também estava sonhando com a solidão, mas Sai estava exibindo o seu melhor sorriso para o céu. Ela pensou por um segundo, repetindo a voz na sua mente um milhão de vezes ou quantas forem necessárias.
“Na verdade, você quem é. O pior pesadelo favorito.” Ela pensou, mas aí estava outra coisa que ele não saberia.
To be continued..
1 comment Quinta-feira, Julho 24, 2008
Dreaming About Teeth 001
Por James B. W.
N/A: Narração feminina, por Sai.
O céu estava mergulhando em um cinza claro, mas sem cor de uma forma tão extrema que era quase tedioso. E mesmo que houvesse manchas se espalhando sobre as montanhas, nada disso era empolgante. Eu cheguei a ficar com raiva pelo fato do Sol não fazer o gramado reluzir, se escondendo atrás de grossas camadas de água. Pelo menos o chão não estava úmido, e eu pude me sentar na grama sem nenhum problema.
Provei do suco vermelho incerta. Que era doce foi a minha primeira conclusão, mas eu não pude identificar a fruta. Estava bom, de qualquer forma. Eu nunca fui boa com os sabores.
Reclinei-me, apoiando o peso em minhas mãos atrás de meu corpo. Seria maravilhoso se os raios de Sol pudessem beijar meu rosto e me fazer enrubescer, mas todos os simples desejos daquela manhã pareciam ser pedidos contrários. Na verdade, dos últimos meses. Eu estava começando a temer desejar estar viva, pois era mais possível que um aracnídeo gigante invadisse meu quarto do que um desejo meu ser atendido.
Eu não vi quando John caminhou até mim, mas pude sentir a mudança do ar quando ele se sentou ao meu lado. Era uma surpresa que ele houvesse decidido se juntar a mim naquela viagem, já que poucos de seus amigos haviam vindo conosco. Mas ele e Edwin estavam se saindo bem até agora. Carregaram as malas para dentro ontem de madrugada e acordaram cedo para nos ajudar a preparar o café. E mesmo que Julian houvesse ligado há alguns minutos declarando-se rendido pelo temporal que abatia a cidade há dias, e relatando que estava arrumando as malas, eu estava contente que a iniciativa de passar mais tempo comigo fosse baseada em coisas mais minhas do que deles.
Ele suspirou sonoramente, apoiando os braços no joelho e olhando para as colinas assim como eu. Eu cogitei a possibilidade dele estar pensando em algo para dizer, iniciar um assunto ou sabe-se Deus o que, mas nada foi dito. Ele permaneceu calado pelos incontáveis segundos em que eu deixei meu coração acelerar. Não chegou nem a pedir quando seus dedos brancos se apoderaram do meu copo, mas ergueu um canto da boca quando eu o interroguei com a minha sobrancelha.
“O que há? Meu suco.” Eu disse, num tom de brincadeira, mas ele não retribuiu com a voz.
Eu olhei para trás quando um grito ecoou pelo meu quintal e vi Nikki sendo jogada na piscina de maneira completamente covarde por Edwin. John gritou alguma coisa, mas meu cérebro não se deu ao trabalho de absorver. Eu estava olhando para a curva de seu pescoço, quase coberta pelos fios loiros, completamente alheia a cena que se seguia atrás de nós, e só reparei que estava perto demais quando o ar que saía pelo meu nariz fez com que os fios tremessem. Ele se virou para mim, me dando a deixa para me afastar, e eu alinhei meus cabelos enquanto ele abria a boca para falar.
“Obrigado por nos convidar, Sai.” Pronunciou.
“Eu nunca achei que você fosse do tipo que agradecia.” Eu sorri, deixando claro que era uma brincadeira boba e sem sentido. Em outras palavras, deixando claro que eu podia ter ficado calada.
“Nem eu.” Ele sorriu também.
Eu poderia dizer que ele estava deixando claro que não era uma brincadeira, mas seria uma dedução precipitada baseada em nada. Eu notei que ele ainda tinha o canudo pendendo de um canto da boca quando um barulho soou. Ele havia bebido todo o meu suco, e quando retirou o plástico da boca eu vi que estava com marcas de mordidas na ponta. Rolei meus olhos e larguei os ombros alguns milímetros, mas John se levantou.
“Eu pego mais para você.”
Eu desejei dizer que não era necessário, e pedir para que se sentasse ao meu lado novamente, mas só quando já havia confirmado com a cabeça e feito ele se afastar. Procurei pelos olhos Nikki, e encontrei-os sobre mim, vindo da piscina. Ela sorriu docemente me fazendo questionar se eu parecia tão triste e solitária quanto ela parecia sentir pena de mim. Mas no segundo seguinte ela havia afundado e recomeçado uma brincadeira sem sentido com Edwin.
Eu me encolhi dentro do meu pijama e desejei calor.
To be continued..
2 comments Quinta-feira, Julho 17, 2008
Life ‘Sux’ [Mona talks to Jacob]
CENA: Uma rua em Kensington. Mona Lisa andando sozinha.
Fazia uma manhã fria como sempre naquela cidade, e a neblina insistente poderia ser considerada quase que escassa comparada aos padrões de Kensington. Mona Lisa não sabia ao certo o que estava fazendo enrolando-se no seu casaco fino, tentando gerar um mínimo de calor, e caminhando pelo cimento da rua solitária. Ela não sabia nem que motivo em especial obrigava seus pés a moverem-se, arrastando em uma linha reta até aquele lugar. Em seu íntimo, sabia que não havia nenhuma razão concreta além do seu desejo; nada além de capricho. Contudo, algo ecoava em sua mente, um pouco mais racional do que seus instintos, e Mona podia acreditar que era um motivo maior. Quando se apoiou na parede de concreto, respirando fundo algumas vezes, ela se prendeu a isso de uma forma muito além de humana; como se de repente precisasse de forças. Seus dedos estavam um pouco mais gelados, e não por causa da temperatura. O nervosismo era um reflexo. Mona Lisa não se importaria de falar mil vezes – ou mil vezes e meia – as coisas que se passavam pela sua mente, mas dessa vez era importante. Ela sabia que era; ela sentia a importância disso crescendo diante de seus olhos (e dentro de si).
Ela encarou seus dedos por um momento, prendendo-se na aparência de sua pele. Tentou divagar sobre sua própria imagem – estou com tanta aparência de velha, assim? –, mas não conseguiu. Suspirou. As ações eram assim, sempre inúteis e quase sempre também mal realizadas. Uma tortura o que estava vivendo. E nem era tão ruim. Era só um capricho qualquer – ou não? – era só uma tentativa de fazer as coisas nunca mais saírem dos eixos, porque era simplesmente asfixiante – e isso, mais do que uma qualidade, é quase como uma benção – quando elas estavam do jeito que estavam agora. Funcionando. Bem.
Abriu a porta, encarando o local. Lembrou-se quando prometera, não exatamente ali, mas na cidade de qualquer forma, que nunca mais voltaria. Lembrou-se de como havia se sentido por tanto tempo, odiando tudo que tivesse relacionado à Kensington, e quase que a si mesma. E ela estava ali, construindo a sua vida exatamente do mesmo jeito que sua mãe fizera. “Pelo menos”, ela pensava enquanto tentava se livrar da vergonha disso, “não sou exatamente como a minha mãe”.
- O que há? – Jacob se aproximou dela, beijando-lhe os lábios fraternalmente, mas tendo as mãos e o tempo ocupados demais para dedicar uma atenção maior.
- Olá, Jake. – ela disse, com um sorriso enviesado, já tentando desviar a atenção das razões de sua visita inesperada, enquanto ele se virava abandonando a bandeja na bancada do local.
- Olá. – ele respondeu sorrindo, e voltou-se a dedicar ao seu trabalho.
Mona mexeu seus dedos à sua frente, refletindo por alguns fragmentos de segundo, e voltou a se aproximar, dessa vez do outro lado do balcão. Ela permitiu-se tocar em Jake, e ele olhou-a nos olhos. Por que seus olhos estavam ardendo tanto?
Havia tempos que Mona não chorava tão inesperadamente, e a lágrima que molhou sua face fora muito mais do que apenas uma surpresa, fora quase como um susto para o homem. Jacob passou seu polegar pela bochecha macia e lisa – quase a mesma da menina que ela fora há alguns anos – e ela sorriu, deixando que ele se sentisse um pouco relaxado.
- O que houve com você? – perguntou.
- Eu estava passando.. Bem, não. – ela balançou a cabeça negando seja lá o que estivera prestes a afirmar.
Aí estava a coisa importante, saindo dela. Ela estava transformando em palavras apenas para drenar a si mesma, porque aquilo era mesmo asfixiante.
Jacob esperou. Esperaria, de qualquer modo, mais do que por não ter nada a fazer – os clientes do café não pensavam assim – mas porque essa era a prioridade. Ele seguiu com sua mão até os fios curtos da mulher, olhando-a por um instante interminável, e usando seus dedos para dedilhar a alma de Mona.
- Eu queria agradecer.. – começou, encarando os olhos claros dele reconhecendo o seu menino – Obrigada por ser meu amigo.. Cuidar de mim, me escutar, e todas essas coisas incríveis que você tem feito nos últimos anos.
Ele a abraçou, ela se afogando em sua camisa, e deixou que ela aproveitasse de seu próprio calor. E quase que como um silêncio, seus lábios se moveram sobre a cabeça da garota, proferindo uma confissão amargurada e tão bem conhecida aos seus ouvidos e mente.
Ele disse:
- Eu sou seu irmão; se somos algo no fim. Você sabe o quão mais irmã você é para mim do que qualquer outra pessoa no mundo.
Ele disse:
- Não se sinta grata por aquilo que eu faço com prazer. Cuidar de você é tê-la por perto, ouvir sua voz doce ecoando grosserias, e todas as coisas banais que eu faço para lembrar a mim mesma que você está viva. Não se sinta grata porque eu estou por perto, se no final é só por você ser você, que me tem como um imã.
E então, silenciando as palavras contra a camisa de Jacob, Mona proferia em um vazamento de sua mente e coração:
- Se eu pudesse ser Bruce, para aliviar a dor que você sente em amá-lo, eu seria. Se eu pudesse ser sua irmã, em vez dele, eu seria; Por você, faria isso mil vezes.
Ela disse, havia dito, repetiria quantas vezes fossem necessárias.
Ela agia como julgava dever, e era isso que ela significava, e o tamanho da sinceridade nisso era quase doloroso.
- A vida é uma merda para nós.
Até Logo.
1 comment Domingo, Junho 8, 2008