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Life ‘Sux’ [Mona talks to Jacob]
CENA: Uma rua em Kensington. Mona Lisa andando sozinha.
Fazia uma manhã fria como sempre naquela cidade, e a neblina insistente poderia ser considerada quase que escassa comparada aos padrões de Kensington. Mona Lisa não sabia ao certo o que estava fazendo enrolando-se no seu casaco fino, tentando gerar um mínimo de calor, e caminhando pelo cimento da rua solitária. Ela não sabia nem que motivo em especial obrigava seus pés a moverem-se, arrastando em uma linha reta até aquele lugar. Em seu íntimo, sabia que não havia nenhuma razão concreta além do seu desejo; nada além de capricho. Contudo, algo ecoava em sua mente, um pouco mais racional do que seus instintos, e Mona podia acreditar que era um motivo maior. Quando se apoiou na parede de concreto, respirando fundo algumas vezes, ela se prendeu a isso de uma forma muito além de humana; como se de repente precisasse de forças. Seus dedos estavam um pouco mais gelados, e não por causa da temperatura. O nervosismo era um reflexo. Mona Lisa não se importaria de falar mil vezes – ou mil vezes e meia – as coisas que se passavam pela sua mente, mas dessa vez era importante. Ela sabia que era; ela sentia a importância disso crescendo diante de seus olhos (e dentro de si).
Ela encarou seus dedos por um momento, prendendo-se na aparência de sua pele. Tentou divagar sobre sua própria imagem – estou com tanta aparência de velha, assim? –, mas não conseguiu. Suspirou. As ações eram assim, sempre inúteis e quase sempre também mal realizadas. Uma tortura o que estava vivendo. E nem era tão ruim. Era só um capricho qualquer – ou não? – era só uma tentativa de fazer as coisas nunca mais saírem dos eixos, porque era simplesmente asfixiante – e isso, mais do que uma qualidade, é quase como uma benção – quando elas estavam do jeito que estavam agora. Funcionando. Bem.
Abriu a porta, encarando o local. Lembrou-se quando prometera, não exatamente ali, mas na cidade de qualquer forma, que nunca mais voltaria. Lembrou-se de como havia se sentido por tanto tempo, odiando tudo que tivesse relacionado à Kensington, e quase que a si mesma. E ela estava ali, construindo a sua vida exatamente do mesmo jeito que sua mãe fizera. “Pelo menos”, ela pensava enquanto tentava se livrar da vergonha disso, “não sou exatamente como a minha mãe”.
- O que há? – Jacob se aproximou dela, beijando-lhe os lábios fraternalmente, mas tendo as mãos e o tempo ocupados demais para dedicar uma atenção maior.
- Olá, Jake. – ela disse, com um sorriso enviesado, já tentando desviar a atenção das razões de sua visita inesperada, enquanto ele se virava abandonando a bandeja na bancada do local.
- Olá. – ele respondeu sorrindo, e voltou-se a dedicar ao seu trabalho.
Mona mexeu seus dedos à sua frente, refletindo por alguns fragmentos de segundo, e voltou a se aproximar, dessa vez do outro lado do balcão. Ela permitiu-se tocar em Jake, e ele olhou-a nos olhos. Por que seus olhos estavam ardendo tanto?
Havia tempos que Mona não chorava tão inesperadamente, e a lágrima que molhou sua face fora muito mais do que apenas uma surpresa, fora quase como um susto para o homem. Jacob passou seu polegar pela bochecha macia e lisa – quase a mesma da menina que ela fora há alguns anos – e ela sorriu, deixando que ele se sentisse um pouco relaxado.
- O que houve com você? – perguntou.
- Eu estava passando.. Bem, não. – ela balançou a cabeça negando seja lá o que estivera prestes a afirmar.
Aí estava a coisa importante, saindo dela. Ela estava transformando em palavras apenas para drenar a si mesma, porque aquilo era mesmo asfixiante.
Jacob esperou. Esperaria, de qualquer modo, mais do que por não ter nada a fazer – os clientes do café não pensavam assim – mas porque essa era a prioridade. Ele seguiu com sua mão até os fios curtos da mulher, olhando-a por um instante interminável, e usando seus dedos para dedilhar a alma de Mona.
- Eu queria agradecer.. – começou, encarando os olhos claros dele reconhecendo o seu menino – Obrigada por ser meu amigo.. Cuidar de mim, me escutar, e todas essas coisas incríveis que você tem feito nos últimos anos.
Ele a abraçou, ela se afogando em sua camisa, e deixou que ela aproveitasse de seu próprio calor. E quase que como um silêncio, seus lábios se moveram sobre a cabeça da garota, proferindo uma confissão amargurada e tão bem conhecida aos seus ouvidos e mente.
Ele disse:
- Eu sou seu irmão; se somos algo no fim. Você sabe o quão mais irmã você é para mim do que qualquer outra pessoa no mundo.
Ele disse:
- Não se sinta grata por aquilo que eu faço com prazer. Cuidar de você é tê-la por perto, ouvir sua voz doce ecoando grosserias, e todas as coisas banais que eu faço para lembrar a mim mesma que você está viva. Não se sinta grata porque eu estou por perto, se no final é só por você ser você, que me tem como um imã.
E então, silenciando as palavras contra a camisa de Jacob, Mona proferia em um vazamento de sua mente e coração:
- Se eu pudesse ser Bruce, para aliviar a dor que você sente em amá-lo, eu seria. Se eu pudesse ser sua irmã, em vez dele, eu seria; Por você, faria isso mil vezes.
Ela disse, havia dito, repetiria quantas vezes fossem necessárias.
Ela agia como julgava dever, e era isso que ela significava, e o tamanho da sinceridade nisso era quase doloroso.
- A vida é uma merda para nós.
Até Logo.
1 comment Domingo, Junho 8, 2008