Estranho Conhecido
Trouxe um primo que não mora muito longe daqui – ele diz logo que chega, substituindo até um alôu – tenho certeza de que já deve conhecê-lo.
Não murmuro uma resposta porque não estou certo à primeira vista. O rosto é, de fato, familiar, mas daí a saber em qual das muitas esquinas do Rio de Janeiro eu havia esbarrado com aquela figura carrancuda já era uma outra história, que eu não poderia contar, pois sempre fora muito desmemoriado. Decidi por ser honesto, o que há muito era marca conhecida minha na vizinhança, e aquele rapaz não estranharia. Não me recordo, eu disse, não posso afirmar se é verdade que nos conhecemos, embora ele não me seja de todo estranho.
O estranho conhecido me estendeu a mão áspera, que eu tomei sem titubear por mania de educação. Que raios, se soubesse ao menos a burrada que fazia ao ser tão calorosa – ou ao menos cedendo aos toques – em cumprimentos desnecessários. Mas não sabia nada. E na minha ignorância, o próprio estranho me disse, uma boca um pouco fina, uma voz um pouco aguda, seu nome.
- Medo.
Que absurdo não recordares, disse-me meu próprio cérebro. Sorri como quem quer fugir dali e não sabe exatamente como esconder aquilo e também eu disse meu nome. Está bem, ele retrucou, mas não saiu, não moveu-se um milímetro.
Se tinha modos, não sei dizer. Fiquei tão atônito com sua simples presença que o máximo que consegui reparar foi em sua aparência que inteira era um incômodo. Olhe só, se é verdade que nós nos conhecíamos, esse lado do Medo eu nunca tinha visto. Algo como grotesco, irritante e luminoso bem diante dos olhos. Se eu o conhecia, nunca sua presença tinha sido tão enfatizada. Não me lembro de ter jamais cedido à ele, também, e nem de tê-lo dado à mão, e por um momento me arrependi de tê-lo dito não o conhecer, porque, veja bem, que absurdo seria se agora quisesse tratar-lhe como um velho amigo para acalmá-lo e quem sabe mostrar-lhe que faria bem arrumar a aparência. Uma coisa mais amena na minha sala de jantar não faria mal algum, ensinar-lhe a segurar talheres sem que o constante tintilar atraísse a atenção de todos – ou a minha.
Não podia nem sequer dizer-lhe nada, pois sua postura rígida não me dava espaço algum para argumentos.
—
Se existe uma divisão entre até onde está bem, e a partir de quando está mal, nunca a conheci. Nunca vi essa linha, nunca a senti em minhas mãos e poucas vezes pude notar o gosto amargo do desagrado antes de chegar em casa e me fechar no quarto.