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Tradução (O Mágico Encontro das Línguas)

Por James B. W.

Nem sempre que faz frio, chove.

Tom sabia disso, mas sentia-se completamente frio e encharcado, ainda que tentasse manter as duas questões em pontas diferentes. Ele não queria – mas, de fato, não havia muito do que queria acontecendo –, apenas tinha certeza de que se a origem é a mesma, então não importa a condição, tudo vem e vai para o mesmo lugar. Se ele se sentia sozinho e chorava talvez, mais do que bifurcadas, as sensações fossem dependentes uma da outra.

E se achou estúpido aí, porque chorar por se sentir solitário não era algo que ele houvesse considerado em toda a sua vida. Era visivelmente algo mais propício a acontecer com Bill.

Ao mesmo tempo, porém, se fosse pensar dessa maneira, estaria definitivamente ferrado. Aparentemente, tudo que ele não havia planejado estava acontecendo, e com uma força maior do que ele poderia prever. E, de repente, estava se sentindo dependente de coisas e pessoas em um sentido um pouco diferente do que ele conhecia até então. Tom estava definitivamente e irrevogavelmente apaixonado pelo seu próprio irmão.

A idéia não veio com essa clareza no início, mas até mesmo os caminhos tortuosos que o levaram a admitir para si mesmo que o sentimento era real, não seriam capazes de fazê-lo acreditar que já esteve em uma condição pior. Ele poderia viver em dúvida para sempre, desde que Bill estivesse por perto. E se tentasse negar, eventualmente Tom também teria que admitir que era ele o único culpado pela distância. Que toda a dor que estava em seu coração vinha também do amor que habitava nele, e de sua incapacidade de reprimi-lo.

Dentro da casa, sua mãe poderia estar caminhando com os olhos vazios querendo saber o motivo de seu pequeno filho ter finalmente a abandonado e se mudado para Berlim. Ali, apoiado no pequeno corrimão para a varanda de sua própria casa, sentado fora de onde era coberto e deixando que a chuva molhasse seu rosto para que ele mesmo não notasse as lágrimas, Tom podia fingir que não era o culpado. Podia fingir para si mesmo que sua dor era o resultado de uma conspiração mundial. E podia sofrer, fingindo que não sofria; Remexer na ferida sem nenhum propósito, visto o quão recente ela era.

O carro parou. Ele pode distinguir entre a chuva, as curvas de metal do carro velho de Georg. Era mesmo um bastardo por aceitar dirigir até Berlim nessa chuva, adiantando a ida de seu irmão. Sem saber muito o que estava fazendo, Tom levantou-se e caminhou até lá, abrindo a porta e encharcando o banco ao entrar.

“Você é mesmo um idiota.” Praguejou.

“É você quem está molhando o meu banco.” Georg achou pertinente lembrá-lo. “Mas por que tanto amor para comigo?”

“Você vai levá-lo de mim, Listing. Você vai levá-lo de mim e não me deu nem tempo para que eu pudesse assimilar essa idéia.” A voz saíra ainda mais chorosa do que ele achava que iria, e ele se viu como uma criança birrona.

“Você não vai com ele?” Georg franziu o cenho. “Ele não me disse isso.

“Você nem ao menos sabe o motivo de ele estar indo?” Tom se assustou. A amizade entre Bill e Georg não era daquelas onde se havia lacunas.

“Eu achei que fosse apenas mais uma idéia maluca de vocês.”

“Não há mais ’vocês’, Georg. Ele quebrou isso. Agora sou apenas eu e apenas ele.” Tom disse entre dentes, em uma raiva repentina que sua dor lhe provocava. “O bastardo está me matando.

Georg não estava entendendo muita coisa do que estava acontecendo. Por que Bill decidira ir embora de repente, e por que Tom estava tão desesperado por isso? Por que era tão terrível que alguns quilômetros fossem adicionados a distância de um metro ou dois entre as camas?

Viu Bill sair pela porta da casa, carregando uma caixa aparentemente pesada nas mãos e chutando algo parecido com uma mala com a perna direita. O moreno se abaixou e deixou a caixa ao lado da porta, correndo até o carro por entre a cortina cinza de chuva que caía constantemente. Tom não viu isso acontecer, pois encarava os joelhos, fungando, tentando prender as lágrimas quentes e grossas em seus olhos. Só quando Bill já havia batido no vidro foi que os dois perceberam-se próximos, e a tristeza já existente nos olhos do moreno passou a ser ainda mais desesperadora ao encarar os olhos vermelhos e a aparência molhada do irmão.

Ele mordeu o lábio inferior e curvou as sobrancelhas em um V invertido, como se pedisse desculpas. E Georg, ao ver isso acontecer, não pensou em muita coisa e abaixou o vidro, curvando-se sobre Tom e rugindo alto o suficiente para que Bill ouvisse pela tempestade algo como “Entre logo, ou eu mato você”.

Bill pensou em negar, mas a expressão do amigo foi decisiva e ele abriu a porta do banco de trás, escorregando por ele com mais uma quantidade generosa de água. Georg deu a partida e os gêmeos o indagaram com “O quê?”s indignados, mas inúteis, visto a determinação do motorista. Seja lá o que fizesse isso ser tão doloroso, tinha que ser resolvido, porque ele não iria dirigir o carro do pai em uma tempestade por 200 km se isso fosse fazer dois de seus amigos sofrerem. Mesmo que fosse divertido.

Bill se encostou ao banco de couro, apoiando a cabeça deixando que ela encarasse o teto forrado do carro. Tom limitou-se a encarar a rua que ia ficando para trás, sem querer se questionar sobre onde estavam indo, o que estavam fazendo. Apenas apurou os ouvidos para que, entre a chuva rígida, pudesse ouvir a respiração oscilante de Bill, aproveitando alguns dos indícios de vida – da preciosa vida que tanto estimava – que iria perder com a distância.

Foi em um instante, nem um dos gêmeos estava prestando muita atenção, mas Tom xingou algo quando sua cabeça se chocou contra o porta-luvas. Estava sem cinto, e o choque o fez fechar os olhos por alguns instantes, com dor demais para se sentar direito novamente. Bill debruçou-se sobre o banco, gritando com Tom algo sobre irresponsabilidade enquanto Georg, ainda assustado voltava a seguir com o carro.

“..Você só devia colocar a merda do cinto de segurança, Tom.” Bill resmungou. “Não é como se eu estivesse pedindo muita coisa.”

Tom obedeceu grosseiramente, virando-se para trás com um olhar com mais significado do que o desejado por Bill e disse frio. “Não é como se eu estivesse também.”

“Agora vai me crucificar a cada coisa que eu disser?”

“Você está merecendo.” Tom disse apenas. “Que idéia foi essa de simplesmente se mudar para Berlim, dessa forma? Ainda mais depois do que aconteceu.”

Georg se encolheu em seu banco, sem se dar conta disso.

Exatamente pelo que aconteceu, Tom.” Bill disse, como se fosse óbvio.

“Ah, é claro. Eu esqueci que você costuma fugir como uma garota quando as coisas começam a ser grandes demais para você.”

“Pelo amor de Deus, Tom. Você sabe que não é assim!”

“Não. Eu não sei. E eu agradeceria se você me dissesse como as coisas são, ao invés de me comunicar da sua mudança menos de 24 horas depois de eu reunir coragem o suficiente para te dizer como eu me sinto.” Tom foi cínico. “Porque eu me lembro de você sussurrando como uma menina, me dizendo que se sentia da mesma forma.”

“Eu me sinto!” Bill praguejou. “Mas isso não é o suficiente!”

E antes que Tom pudesse ser ríspido em qualquer resposta, o carro freou novamente. Tom estava seguro pelo cinto, mas Bill, que estava apoiado no banco, de Georg foi arremessado para frente – quando esmagou sua mão entre o couro e seu corpo – e depois para trás com força.

Uma buzina foi ouvida, evitando qualquer interrogatório que pudesse ser feito por Georg. De qualquer forma, depois de puxar o ar com força, o mais velho chegou a conclusão que o seu momento viria depois.

“Por que você não colocou o cinto?” Tom perguntou grosseiramente.

“Ah, Tom. Quais são as probabilidades da minha cabeça atravessar o pára-brisa daqui de trás?” Bill revirou os olhos.

“Eu espero que muitas.”

Não era incomum que certas coisas fossem ditas entre os irmãos Kaulitz, mas alguma coisa naquele tom, alguma angústia forte e desumana naquela voz doce, fez com que Bill abaixasse a cabeça e prensasse os lábios, para que as lágrimas não caíssem em seu colo.

“Não é justo você agir assim comigo.” Ele sussurrou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.

“Digo o mesmo.” Tom voltou a encarar a janela. “Porque se o que você sente não é o suficiente para você ficar aqui comigo, também não deveria ser o suficiente para você me deixar sozinho.”

“Você está me colocando no papel de vilão, Tom. Quando tudo o que eu estou tentando fazer é te proteger.”

“Eu não quero uma nova mãe, merda. Eu quero um na-“ E parou abruptamente, pensando no que estava prestes a dizer.

Georg deslizou as mãos pelo volante, tentando manter a direção uniforme, desistindo de fazer o mesmo com a sua respiração. Bill não disse nada. Não achou nada conveniente para desviar a atenção do que estivera quase a escapulir pelos lábios do irmão.

“Isso não é novo, Bill. Não é para mim, e pelo que você me disse, não é para você.” Ele constatou. “E não é fraco, porque está me matando e visivelmente matando você também.”

“É-“

“E eu sei que é doloroso, mas eu nunca tinha ficado tão inquestionavelmente feliz quanto eu fiquei ontem.” Tom conclui, antes que Bill conseguisse falar qualquer coisa.

“Mas isso está nos matando, como você disse.” Repetiu. “E isso não vai parar.” E ao dizer isso, Tom viu pelo espelho retrovisor o irmão encostar a mão em seu próprio peito em um gesto simbólico, caracterizando o ‘isso’ melhor do que ele próprio poderia fazer.

E dentro de si, o menino de dreads sentiu tudo se remexer.

“E você acha que não vale a pena?” Tom soou com sua voz fraquinha, como alguém que forçava as cordas vocais a funcionar enquanto seu coração e estômago e fígado e pâncreas trocavam de lugar insistentemente. “Lembre-se de ontem.. Você realmente acha que não vale a pena?”

Georg estacionou o carro na praça pela qual estavam passando, sem parecer realmente que ali seria o destino de fato e, sem se importar com a chuva, saiu do carro sem dizer uma palavra, batendo a porta com um pouco mais de força que o comum. Os dois olharam pelo vidro enquanto a chuva permitia distinguir o amigo, pensando no choque com o que ele estava lidando agora, mas depois que tudo voltou a ser uma grande massa acinzentada, os dois se encararam. Tom soltou-se do cinto e se virou, apoiando-se em seus joelhos e ficando de frente para o irmão.

“Eu não quero que crucifiquem isso. O nosso amor é sagrado. Eu não quero nunca que olhem para nós como se estivéssemos errados.” Bill inclinou a cabeça enquanto falava, deixando que algumas lágrimas inevitáveis corressem pela sua face. “Eu me suicidaria se eu te causasse alguma dor pelo amor que eu sinto por você.”

“É melhor você começar os trabalhos, porque se você não reparou, dor é a única palavra que tem tradução para todas as línguas para mim.”

Bill não disse nada. Não havia o que pudesse dizer.

Se ele fosse capaz, sem sombra de dúvidas, mudaria todas as circunstâncias. A dor de ir embora depois de ter se sentindo mais sublime do que jamais estivera era indescritível. Mas ele suportaria o que quer que fosse se isso significasse proteger Tom, porque, mais do que se sentir sozinho, se sentir culpado por qualquer coisa que ferisse a pessoa mais preciosa de sua vida era suicídio.

“Não tem que ser assim, Tom.. Você precisa ficar bem; Pelo menos, por mim.” Ele pediu em um sussurro ainda mais lento e silencioso do que toda a conversa.

“Sem você?” Tom questionou. “Você fez parte de toda a minha vida.” Tom escorregou um pouco para o lado, deixando a voz soar mais firme. “E se tornou, a cada dia da sua existência, tudo que eu posso chamar de vida. Você quer que eu encontre um modo de ficar bem sem você?” E suspirou, constando como resultado das suas indagações: “Você é absurdo.”

“O que você acha que aconteceria se as pessoas soubessem? Nós não somos só homens, nós somos irmãos.”

“E nós nos amamos mais do que é possível amar alguém. Ou será que eu estou falando só por mim? ..Às vezes eu acho que estou, porque você parece lutar contra o óbvio.”

Bill suspirou e adotou o tom que usaria para explicar algo simples a uma criança. “É óbvio para nós dois. Mas e para o resto do mundo? Você acha que eu vou deixar eles te machucarem?”

“Ninguém precisa saber.”

“Nós admitimos para nós mesmos ontem e o Georg já está tendo um ataque cardíaco lá fora.” Foi a vez de Bill revirar os olhos.

“Mas é o Georg!” Tom bufou. “E eu poderia me mudar para Berlim com você. De que você teria medo lá?”

Bill deixou que o silêncio durasse um pouco. Imaginou-se vivendo em Berlim com o irmão. Havia mentido para Georg, então seu amigo deveria ter lugar para os dois na casa. Gustav, o nome dele. Fora uma combinação um tanto rápida, mas aparentemente ele estava tendo dificuldades para manter o aluguel do apartamento, o que apressara os acertos. E longe da mãe e de Gordon – seu padrasto – não havia muito de quem esconder.

“Você tem idéia do inferno que seriam as nossas vidas?” Bill perguntou, elevando as sobrancelhas. “Nós nem ao menos completamos dezoito anos.”

Tom esticou a mão para tocar o rosto ainda molhado do irmão. A maquiagem forte usual estava borrada e escorria em alguns pontos, e as lágrimas que ele derramara a pouco ainda estavam marcadas com riscos pretos pelas maçãs do rosto de Bill. O cabelo preto já estava para baixo antes da chuva, mas agora grudava ao redor de seu rosto branco.

Tom deslizou os dedos para limpar o delineador escorrido, mas tudo que conseguiu foi que ficasse ainda mais espalhado. Sorriu para Bill. Um sorriso sem dentes, mas um sorriso feliz.

“Você tem idéia do inferno que seria a minha vida aqui?”

Bill não pode evitar sorrir de volta. E os dois aproveitaram a sensação de ter todos os pedaços de seus corações colados de volta, ainda mais firmes.

O moreno deslizou alguns centímetros ainda mais para perto, ficando em uma posição desconfortável por causa do banco entre eles. Levou sua mão até a cintura não-acentuada de Tom, acariciando-o ali, sentido-se frustrado por não poder colar os corpos. Inclinou sua cabeça para mais perto, roçando a ponta do nariz gelado pelo pescoço do irmão, subindo até sua orelha, e depois os lábios cruzando a pele da bochecha até chegar à boca. Eles tocaram os narizes, tentando controlar as respirações enquanto elas faziam que se arrepiassem pelo toque leve que provocavam em seus rostos. As bocas se uniram mais uma vez. Não haviam passado nem 24 horas, mas parecia uma eternidade. A vontade que tinham era de nunca, nunca mais interromperem esse contato.

E, quando as línguas se enroscaram caracterizando o que desejavam fazer a seus corpos, os dois tiveram a mesma certeza. Deveria haver alguma língua, algum dialeto ou qualquer outra maldita coisa em que ‘amor’ não fosse uma palavra só, mas um parágrafo, um testamento. Onde ‘Ich liebe dich’ não fosse algo tão pequeno, tão esmirrado, tão comum. Porque, definitivamente, o que estavam sentindo não era comum.

E o significado daquilo não cabia em três palavras.

Das Ende.

1 comment Terça-feira, Setembro 23, 2008

Mondlicht (Die Unendlichkeit Ist Nicht Mehr Weit)

Por James B.W.

Tom não sabia explicar como as coisas haviam avançado daquela forma. De fato, uma coisa não só acontece depois da outra como uma coisa leva a outra. E o tempo todo, alguma coisa estava acontecendo. Mas ao sentir seus lábios sendo comprimidos contra o do outro não podia deixar de se perguntar como.

Ele não se lembrava de ter imaginado isso acontecer nunca. Talvez inconscientemente estivesse desejando isso – de outra forma não teria sido tão absurdamente rápido –, mas sem sombra de dúvidas jamais fora capaz de racionalizar. Nem da primeira vez, nem da segunda e nem dessa vez. Era um pouco difícil demais responder suas próprias perguntas naquela condição.

Ofegou contra os lábios finos do outro. Era enlouquecedor o modo com que as bocas se tocavam e as mãos se exploravam. Quase melodiosamente, quase como tocar um instrumento, quase como tocar a si mesmo. Colaram a testa e se encararam por um segundo. Tom achou apropriado sorrir porque precisava aliviar a pressão que aquela felicidade lhe causava, e foi inevitável manter os lábios com as pontas levantadas quando recebeu um sorriso de volta. Os dentes eram mais tortos que os seus próprios em alguns pontos, mas o outro os faziam parecer ainda mais inocentes naquela face feminina. Sorria como se sorrir fosse parte de uma brincadeira infantil.

Beijava-o da mesma forma.

Era engraçado se focar no fato de que, de irmãos, passaram para melhores amigos. E de melhores amigos para companheiros de banda. E de companheiros de banda para companheiros de cama. E daí para uma dependência emocional incontrolável. Mas era impossível não se maravilhar com isso. Eventualmente ficariam assustados, mas ali não havia muita coisa que eles pudessem dizer ou fazer. Não havia o que temer enquanto se escondessem um nos braços do outro. Não havia um mundo lá fora.

O moreno rodou a testa, aproximando um dos lados de suas faces. Os cílios se acariciavam de leve, fazendo com que algo gostoso e inquieto subisse pelo abdômen de Tom até sua garganta. Ele tentou reprimir, mas um gemido tímido veio quando os cantos dos seus lábios se tocaram e Bill prendeu os seus entre os dele. Depois, roçaram os narizes e os lábios em uma provocação mútua. Tom deixou que sua boca desenhasse no rosto do irmão, descendo ao queixo e subindo pela linha do maxilar até a ponta de sua orelha. Suspirou ali, e o ar fez com que os pêlos da nuca de Bill se arrepiassem.

Nunca haviam sentido mais pertencentes a algo do que naquele momento.

Bill puxou a camisa de Tom para cima, dando o primeiro passo para que o outro a retirasse completamente. Tocou a cintura quase não acentuada do irmão enquanto este distribuía beijos tímidos pela curva de seu pescoço. Deram alguns passos para trás, de forma que Tom se sentou no braço do sofá encaixando Bill entre suas pernas. As ereções despertavam com cada mínimo toque e Tom começou a pensar se ainda era possível ficar mais duro do que estava.

Bill se curvou ainda mais sobre ele, e ele alcançou a sua nuca, roçando os dentes lentamente no caminho de ida e de volta. Sem se controlar, apenas pela sensação que obteve, o moreno comprimiu com força os quadris por um tempo e os afastou. Duas vezes.

Tom deslizou suas mãos para dentro da camisa de Bill quando voltaram aos trabalhos dos lábios e língua. A puxou para cima quase desistindo ao necessitar interromper o beijo o mínimo que fosse. Os tórax se encontraram em um toque frio, mas ofegante. Oscilavam entre o desespero e a calma, o segundo como que para prolongar o primeiro.

Não queriam parar jamais.

Motivado por algo provavelmente ainda maior do que desejo – ele não se lembrava de ter se sentindo assim nunca – Tom desafivelou o cinto e desabotoou a calça do irmão, rolando seus dedos para dentro da mesma e tocando o membro rígido pelo tecido de seda de sua boxer. Acariciou-o com força longamente quando um gemido soou contra os seus lábios.

Bill deslizou a mão da mesma forma, tocando mais intimamente do que nunca o seu próprio irmão. Um beijo era um beijo. Umas carícias eram umas carícias. Isso era definitivamente mais, e irrevogavelmente bom.

Tocaram-se por cima das boxers por um tempo, até que isso não fosse suficiente. E em toques fortes e leves; E beijos, e mordidas e encontro de línguas com línguas, línguas com pele, pele e tecido, o líquido veio. Ainda meio vestidos e ofegantes, sem muito mais do que trabalhos manuais tímidos, jorraram toda a excitação para fora em uma falta de controle impiedosa.

Mas era inevitável.

Naquela noite, quando ambos rolaram na cama e Tom aconchegou Bill em seus braços finos, estavam completos. E depois beijar o topo da cabeça do irmão, pouco antes de adormecer, ouviu o moreno proferir em sua fala rápida e suave – oscilando entre o ritmo, a afinação e os sussurros contra seu peito nu – a música que há tempos havia composto:

“Die Wärme trägt und bis in die Unendlichkeit. Alles treibt an uns vorbei, im Mondlicht sind nur noch wir zwei. Die Unendlichkeit ist nicht mehr weit. Die Unendlichkeit ist jetzt nicht mehr weit..”

“O calor nos carrega na infinidade. Tudo se amontoa ao nosso redor, e na luz do luar existe apenas nós dois. O Infinito não é tão distante. O Infinito não é tão distante agora.”

E ficou subentendido e completamente presente entre os dois corpos que aquilo era mais do que inevitável. Era evitável.

Das Ende.

Add comment Terça-feira, Setembro 9, 2008

Ähnlich 001

Ähnlich, do Português Parecido, Semelhante.

Gêmeo, do Latim geminu.

adjetivo e substantivo masculino,

que ou aquele que nasceu do mesmo parto que outrem;
composto de dois iguais, real ou supostamente coetâneos;

figurativo,

diz-se de coisas idênticas ou perfeitamente iguais;
diz-se dos frutos do mesmo ramo;
diz-se dos músculos que formam a barriga das pernas;

substantivo masculino,

(no pl. ) constelação do Zodíaco (grafado com inicial maiúscula).

Tom nunca entendeu porque Bill tentava permanentemente mudar sua forma para algo ainda mais andrôgeno e separar suas aparências; Entretanto, qualquer que fosse a reação, ele o seguia nessa busca incansável pelas diferenças. Ele dizia a, Bill dizia b. Até nas preferências pessoais e emocionais eles tentavam discordar:

Passeio no parque pela manhã, festa à noite

Doces de morango, pastilhas de menta.

Eu amo você, Eu amo você.

do Latim incestu.

Add comment Sábado, Agosto 30, 2008

Dreaming About Teeth 003

E então, John ficou doente. Muito doente. E mais do que físico, a doença se originou psicologicamente. E foi como se algo o matasse de dentro para fora, devastando a vida de seus olhos e atos. Os sorrisos, antes alheios, agora eram tão escassos quanto a felicidade de Sai. Ela não sabia muito o que fazer, ficou perdida assistindo John se perder dentro dele mesmo. Quis oferecer uma mão, mas o mundo parecia conspirar. Um dia, ele deveria visitar um outro lugar. No outro, ele deveria dormir durante mais horas do que se imaginava ser possível. E quando ela se aproximou, por fim, as palavras lhe fugiram a boca, porque toda vez que via aquela cena era algo automático, e vivendo aquilo todas as coisas que pudesse dizer pareciam desnecessárias.

Ela não perguntaria a ele se ele estava se sentindo bem, isso estava claro em seus olhos redondos e escuros. E toda vez que ela encarava a imagem solitária de John por mais de um milésimo de segundo, seus olhos enchiam-se de água e ela se sentia ainda mais incapaz.

Depois, vieram os comentários. Nikki e Lousie foram as seguintes a perceber. “Você viu como ele está triste? Estou até com dó.” E depois Edwin e Julian que, ao invés de segurá-lo e tentar mantê-lo por perto, o afastaram achando que estariam ajudando. Sai amaldiçoou cada um deles, por serem mais capazes do que ela e mesmo assim, estarem envergonhados ou temerosos de fazerem alguma coisa.

E dentro do seu ódio, Sai se perdeu, tentando consertar coisas sem conserto, tentando segurar mãos não-presentes. Dentro da sua tristeza, o remorso surgiu. E mais do que isso, dentro dela tudo virou escuridão.

E se alguma coisa acontecesse a ele.. Se ele fizesse alguma coisa a si próprio..

Das Ende.

1 comment Sábado, Agosto 23, 2008

Dreaming About Teeth 002

Por James B. W.

Os insetos ressoavam em seus zumbidos e piados típicos do horário. O céu estava mais escuro do que seria capaz na cidade, mas Sai estava satisfeita com o ar do campo que se espalhava pelo seu sítio. Julian, Edwin e John estavam certamente trabalhando na louça do jantar que as meninas haviam preparado, e mesmo que tenha passado pelas suas mentes reclamar, elas haviam cortado essa possibilidade com olhares fulminantes.

Sai aproveitara a atenção momentânea dedicada por suas amigas a algum objeto velho achado em sua própria casa para se esconder na varanda. Dessa forma, não teria de ouvir o som dos copos e pratos se estilhaçando, apesar de ter certeza plena que era exatamente o que estava acontecendo.

Talvez, ela pensou, estivesse mesmo se tornando uma romântica irrecuperável, tomando a bebida fermentada quando todos se enlouqueciam com algumas garrafas destiladas e esperando que ele irrompesse ali fora a qualquer momento. Com as mãos sujas de sabão e um sorriso estúpido, perguntando por que ela estava tão longe e tão sozinha. Seria um plano perfeito para não provocar nada além de uma sensação agradável, subindo pelo seu tórax até corar suas bochechas. Era engraçado como tudo parecia ter sido monumentalmente planejado visto que eram quase três casais. E o maldito quase pela falta de relação entre Sai e John. Ela chegou a pensar que sua mente estivera pregando peças nela, a confundindo antes mesmo que conseguisse se decidir sobre os seus sentimentos e a empurrando sem escapatória para o caminho do platonismo – como se ela mesma não estivesse entregue a ele. Mas Sai estava feliz quando John se aproximava e dizia coisas banais; Feliz o suficiente para não se incomodar com a espera.

“Ei..” E as duas letras flutuaram pelo ar puro, encostando-se no ouvido de Sai como uma melodia.

Ela sorriu e se virou, sustentando o sorriso como um cumprimento, mas sabendo que ele tinha outra razão.

John caminhou com as mãos pingando água e sabão pelo chão vermelho-tijolo que manchava os pés. Sentou-se na rede ao lado dela e com a mudança na estabilidade do pano, Sai pendeu para o seu lado, virando a taça alguns milímetros e derrubando um pouco do líquido em sua calça. Estava um pouco mais perfeito que o plano de sua mente.

“Merda, John!” praguejou.

Ele revirou os olhos e dirigiu as mãos ensaboadas para o joelho da menina, tentando inutilmente livrá-la daquela cor de sangue. Sai achou um tanto absurdo o modo como ele arruinara as coisas e estava arruinando sua calça, mas não haveria um mundo em que ela pudesse pedi-lo para se afastar ou parar de tocá-la. Na verdade, ela chegou a quase dizer isso, antes que ele se irritasse com a sua própria performance e começasse a ser mais vigoroso nos toques. Então, distância parecia tão dolorosa quanto na maior parte do tempo de novo.

“Desculpe.” Ele pediu, começando a rir em um quase silêncio. “Você está bem?”

“Você só molhou a minha calça. Foi estúpido, mas não é como se eu fosse começar a me sentir mal por isso.” Sai riu junto, encarando os olhos amendoados pelo segundo em que o rosto se virou para ela, e suspirando pelo próximo.

“É só que.. Você está quieta. E isso está uma desgraça.” Ele se afastou novamente, deixando a tarefa de lado ao perceber que Sai não ligava para o estado da calça, de qualquer forma.

“Eu estou bem. E a calça vai ficar.” Ela sorriu e bebeu mais um gole do vinho, antes de estalar os lábios e começar a falar olhando para o céu.

“Quando eu era menor, vir para o sítio significava estar sem horários. Para comer, dormir, ou todo o resto. E eu gostava disso, porque de fato quem controlava meus horários era a empregada, e soava muito como regras para mim. Desde já eu era acostumada aos padrões da minha mãe. Viver por aí, vivendo..” Sai olhou para John, para ver se ele se perdera nas palavras ou ainda estava a acompanhando e ele fez um sinal com a cabeça para que continuasse.

“Então, quando mamãe e papai dormiam ou ficavam conversando na sala, eu deixava a luz de dentro acesa e apagava a da varanda, como agora, porque eu tinha medo do escuro. Eu sentava aqui e ficava olhando para o céu, encolhendo a minha visão para que só pudesse enxergar a escuridão a minha frente e os pontinhos luminosos. E eu não sentia medo, porque a luz estava às minhas costas, e eu podia me aventurar em enxergar somente o céu. E era como se não só não houvesse horários para as minhas tarefas, mas como também não houvessem tarefas..“ Sai suspirou, perdida no céu por mais um instante. “Soa estúpido, porque o momento especial de todas as pessoas é quando não há mais nada além deles e o mundo. Mas eu acho que é aí que está o ponto.”

O silêncio contornou o lugar e Sai começou a se perguntar porque havia dito tudo aquilo. Parecia bem estúpido falar tanto de si sem nenhum motivo particular, e foi quando Sai começou a se sentir estúpida. Não que ela não se sentisse assim toda vez que John estivesse por perto, mas ela achava justo citar. E frisar.

“Você tem medo de escuro?” Ele perguntou, fazendo-a arquear a sobrancelha.

“Um pouco.” Confessou.

“Mas quando ficam sozinhas de verdade, as pessoas sofrem. É por isso que você tem medo, você não consegue enxergar ninguém se as luzes estão apagadas.” John suspirou. “E quando você sabe que tem alguém lá, então, você segue. Porque ser sozinho é o melhor sonho e o pior pesadelo.”

Sai sorriu enquanto John usava as pernas para balançar a rede. Ele não viu, porque também estava sonhando com a solidão, mas Sai estava exibindo o seu melhor sorriso para o céu. Ela pensou por um segundo, repetindo a voz na sua mente um milhão de vezes ou quantas forem necessárias.

“Na verdade, você quem é. O pior pesadelo favorito.” Ela pensou, mas aí estava outra coisa que ele não saberia.

To be continued..

1 comment Quinta-feira, Julho 24, 2008

Dreaming About Teeth 001

Por James B. W.

N/A: Narração feminina, por Sai.

O céu estava mergulhando em um cinza claro, mas sem cor de uma forma tão extrema que era quase tedioso. E mesmo que houvesse manchas se espalhando sobre as montanhas, nada disso era empolgante. Eu cheguei a ficar com raiva pelo fato do Sol não fazer o gramado reluzir, se escondendo atrás de grossas camadas de água. Pelo menos o chão não estava úmido, e eu pude me sentar na grama sem nenhum problema.

Provei do suco vermelho incerta. Que era doce foi a minha primeira conclusão, mas eu não pude identificar a fruta. Estava bom, de qualquer forma. Eu nunca fui boa com os sabores.

Reclinei-me, apoiando o peso em minhas mãos atrás de meu corpo. Seria maravilhoso se os raios de Sol pudessem beijar meu rosto e me fazer enrubescer, mas todos os simples desejos daquela manhã pareciam ser pedidos contrários. Na verdade, dos últimos meses. Eu estava começando a temer desejar estar viva, pois era mais possível que um aracnídeo gigante invadisse meu quarto do que um desejo meu ser atendido.

Eu não vi quando John caminhou até mim, mas pude sentir a mudança do ar quando ele se sentou ao meu lado. Era uma surpresa que ele houvesse decidido se juntar a mim naquela viagem, já que poucos de seus amigos haviam vindo conosco. Mas ele e Edwin estavam se saindo bem até agora. Carregaram as malas para dentro ontem de madrugada e acordaram cedo para nos ajudar a preparar o café. E mesmo que Julian houvesse ligado há alguns minutos declarando-se rendido pelo temporal que abatia a cidade há dias, e relatando que estava arrumando as malas, eu estava contente que a iniciativa de passar mais tempo comigo fosse baseada em coisas mais minhas do que deles.

Ele suspirou sonoramente, apoiando os braços no joelho e olhando para as colinas assim como eu. Eu cogitei a possibilidade dele estar pensando em algo para dizer, iniciar um assunto ou sabe-se Deus o que, mas nada foi dito. Ele permaneceu calado pelos incontáveis segundos em que eu deixei meu coração acelerar. Não chegou nem a pedir quando seus dedos brancos se apoderaram do meu copo, mas ergueu um canto da boca quando eu o interroguei com a minha sobrancelha.

“O que há? Meu suco.” Eu disse, num tom de brincadeira, mas ele não retribuiu com a voz.

Eu olhei para trás quando um grito ecoou pelo meu quintal e vi Nikki sendo jogada na piscina de maneira completamente covarde por Edwin. John gritou alguma coisa, mas meu cérebro não se deu ao trabalho de absorver. Eu estava olhando para a curva de seu pescoço, quase coberta pelos fios loiros, completamente alheia a cena que se seguia atrás de nós, e só reparei que estava perto demais quando o ar que saía pelo meu nariz fez com que os fios tremessem. Ele se virou para mim, me dando a deixa para me afastar, e eu alinhei meus cabelos enquanto ele abria a boca para falar.

“Obrigado por nos convidar, Sai.” Pronunciou.

“Eu nunca achei que você fosse do tipo que agradecia.” Eu sorri, deixando claro que era uma brincadeira boba e sem sentido. Em outras palavras, deixando claro que eu podia ter ficado calada.

“Nem eu.” Ele sorriu também.

Eu poderia dizer que ele estava deixando claro que não era uma brincadeira, mas seria uma dedução precipitada baseada em nada. Eu notei que ele ainda tinha o canudo pendendo de um canto da boca quando um barulho soou. Ele havia bebido todo o meu suco, e quando retirou o plástico da boca eu vi que estava com marcas de mordidas na ponta. Rolei meus olhos e larguei os ombros alguns milímetros, mas John se levantou.

“Eu pego mais para você.”

Eu desejei dizer que não era necessário, e pedir para que se sentasse ao meu lado novamente, mas só quando já havia confirmado com a cabeça e feito ele se afastar. Procurei pelos olhos Nikki, e encontrei-os sobre mim, vindo da piscina. Ela sorriu docemente me fazendo questionar se eu parecia tão triste e solitária quanto ela parecia sentir pena de mim. Mas no segundo seguinte ela havia afundado e recomeçado uma brincadeira sem sentido com Edwin.

Eu me encolhi dentro do meu pijama e desejei calor.

To be continued..

2 comments Quinta-feira, Julho 17, 2008

Secret (Everlasting Passion for Nicotine)

N/A: Narração masculina.

Ainda era cedo. Era uma tarde mal começada e o Sol estava a descer no céu há uma dupla de hora. Era cedo demais para estar na rua, para estar ali. Era cedo demais para o nível de álcool que passeava por minhas veias, e o nível de tontura que se espalhava pelo meu crânio. Meus olhos começavam a quedar-se para a sensação de leveza e sono, e quase fechavam-se dramaticamente enquanto eu concentrava todas as minhas forças para mantê-los com um foco. Eu não estava bêbado. Não havia ficado nem feliz. E, quanto mais eu mergulhava minha língua naquele líquido ardente, mais cansado de tudo eu ficava. Mais exausto.

Eu não havia dormido bem. Não era a primeira vez na minha vida, nem no mês e muito menos naquela fatídica semana. Nada estava errado claramente, mas havia aquela sensação crescendo dentro de mim, como se eu estivesse fazendo alguma coisa muito errada. E não era estranho a mim fazer coisas erradas, mas daquela vez eu estava fugindo dos padrões. Eu estava permitindo que uma garota se apaixonasse por mim e me apaixonando em retorno. Eu estava ficando bem assustado.

Em outros tempos eu não estaria assim, perturbado, receoso, certo de que alguma coisa não estava se passando bem dentro de minha mente. Mas é exatamente como eles dizem: mais você conhece da vida, mais você teme dela. E não há nada que nós, meros mortais diante da grandeza dos acontecimentos, possamos fazer contra isso. Então, eu já havia aprendido que quando um homem gosta de uma mulher e essa mulher gosta desse mesmo homem, eles estão destinados a sofrer para o resto da vida, ou até o momento em que eles passem a se conhecer e a beleza do amor, e o amor em si, acabem. E eu não havia escolhido se eu preferia sofrer por Julia eternamente ou assistir isso acabar.

Porque, a idéia de acabar com algo prazeroso me enlouquecia. Eu era o tipo que mantinha o fogo queimando apenas porque ele era quente. Que mantinha-me embaixo das cobertas porque era aconchegante. Que não atendia o celular porque o toque era divertido. Eu mantinha as coisas acontecendo porque eram agradáveis. Então, estava em uma encruzilhada. Eu não aceitava a idéia de sofrer por uma mulher e muito menos de acabar com um relacionamento confortável.

Eu não estava nem sequer triste. Eu estava incomodado e, quanto mais eu me sentia incomodado, mais eu perdia meu sono e o achava em horas inapropriadas – e isso me incomodava. E mesmo que o assunto fosse interessante, e Sai fosse simpática, e a música fosse animada, e o meu copo estivesse repleto de mais álcool. Mesmo que toda a situação se curvasse para algo agradável, confortável, meu pé continuava batendo no chão, e meu dedo no plástico do copo, e minha boca estalando e meus olhos cismando em fechar. E mesmo que eu não transparecesse tanto a minha agonia, ainda assim eu a sentia. E isso me irritava.

Sai acendeu um cigarro com certa dificuldade à minha frente. Mesmo que estivesse treinando frequentemente – havia enchido todos nós para acender os nossos – ainda era um desastre nisso e eu me segurei para não rir, estando ao mesmo tempo certo de que a sobrancelha erguida em seu rosto era para minha boca fechada com força. Tragou, e estendeu para mim.

Eu segurei entre meus dedos e dirigi à boca. Se Julia estava bem, e eu estava bem, então estávamos bem e não havia motivo para essa sensação estranha. Eu puxei a fumaça, sentindo-a preencher meu pulmão, mas sem sentir nenhum relaxamento automático. Talvez eu estivesse ficando dormente pela vodka, talvez eu estivesse com a mente em outro lugar, ou talvez eu estivesse intoxicado demais para me deixar levar por Nicotina. Mas eu amava Nicotina mais do que eu amava Marijuana ou qualquer outra espécie de fumo. Eu amava o meu relaxamento mais do que qualquer alucinógeno, e eu estava bem com ele, mesmo que ele estivesse distante.

Soltei a fumaça para o ar e devolvi o cigarro. Não cheguei a me prender na imagem de Sai tragando mais uma vez, distraidamente, porque também dirigi o meu olhar para onde o dela estava. Era óbvio, e eu não estava surpreso mais, que estivesse pousado sobre a face de John. Ele era tão comum, como um bastardo, e apesar de ter herdado a aparência de soberano, nunca herdaria também ela. E Sai estava completamente perdida, com sua mente completamente mergulhada ali, divagando sabe-se lá sobre o que, e deixando que seu desejo transparecesse ao menos para mim, que conhecia o seu segredo longe de ser secreto. Ele sentou-se ao meu lado, de frente para ela de pé que correu seus olhos para os meus, receosa de que ele soubesse que também dessa vez a presença dele a embriagara. John não iniciou um assunto, também pensativo, e quando eu fiz uma piada estúpida ambos riram desinteressados. Aceitei mais uma vez o cigarro e me entreguei aos pensamentos.

Porque eu e Julia, em algum momento de nossa história, ficaríamos também assim. Em silêncio, pensando em coisas distintas. E eu me peguei desejando que ambos fôssemos como Sai: sublimes com a presença do outro, sem sequer uma demonstração de reconhecimento dirigida a nós. De fato, eu seria muito mais feliz se o meu amor chegasse ao ponto que chegou o de Sai. A felicidade plena pela presença do amado. A excitação enlouquecedora por uma conversa.

Mas também ali havia o desejo de um pouco de coragem para uma intimidade mais ampla. Eu sabia o quanto ela estava se perguntando se poderia sentar-se ao lado de John e tocar em sua blusa. Ou seu rosto. Ou seu cabelo. Eu sabia o quanto ela queria inclinar-se um pouco e contar a ele um segredo qualquer, para sentir seu cheiro, ou a pele tocando em seus dedos curvados como uma concha. E eu não soube se poderia lidar com essa vontade tão simples e essa dúvida tão grotesca.

Eu puxei o ar pelo filtro do cigarro em minha boca, agora mais relaxado e sentindo o formigamento leve começar. Sai falou qualquer coisa sobre alguém caindo, bêbado demais para manter-se em pé, mas eu não cheguei a rir. Eu me inclinei sobre o corpo de John, sentindo o olhar dela sobre minha pele e seu peito explodindo em dúvida e euforia. Ela era uma slasher neurótica, como sempre deixava claro, procurando o tempo todo por demonstrações homossexuais. E com o meu ato pensado, eu sabia que estava fazendo com que seu prazer de voyeurismo nunca mais fosse o mesmo. Certamente, ela nunca mais acharia nada igualmente perfeito do que seu amigo soprando um segredo ao ouvido de seu amado. E quando minha boca tocou a pele da orelha de John, e ele não se mexeu de forma alguma, eu contei.

Eu contei a fumaça de minha amada Nicotina saindo pelos meus lábios, em uma nuvem quase branca envolvendo sua face. Eu sabia que aquela fumaça estava beijando sua pele com mais delicadeza do que eu seria capaz, e a falta de brisa fazia com que isso fosse tão lento quanto um processo de slow motion. Ele não tossiu, o que estragaria o quadro; Não se mexeu, não disse uma palavra. De fato, eu poderia quase ver os pêlos de sua nuca se arrepiando pelo cheiro e pelo contato. Ele também amava a minha Nicotina, eu só não estava certo se mais do que Marijuana. E ele sempre fora um apreciador de contatos próximos, especialmente naquela região. Não era um absurdo que eu houvesse gostado de ter provocado essa sensação ao meu amigo, e nem um absurdo que ele a tivesse sentido, porque, de qualquer forma, o sorriso no rosto de Sai era um pouco além de divertido. E seus lábios ocuparam-se demais nele para poderem comentar qualquer coisa. E se não era dito, então, não era real.

2 comments Terça-feira, Julho 1, 2008


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